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Curitiba - Paraná

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Psicologia da respiração, psicologia da vida

Matéria publicada na revista Psicologia Corporal, Vol.8, 2007

Marcos T. Elias (Mahamuni das)

Resumo: O presente artigo se propõe a observar as relações entre o ato vital da respiração, as emoções e os estados mentais. Sabemos em bioenergética como o uso da respiração veio a se tornar uma das ferramentas fundamentais para o acesso às emoções. Assim, aqui nos debruçaremos sobre as correspondências entre diferentes formas de respirar e os diversos estados de consciência que um indivíduo pode experimentar. O objetivo da pesquisa é esboçar uma ciência e uma psicologia profunda do ato de respirar. Para tal propósito, nos fundamentamos no desenvolvimento da psicologia corporal e da bioenergética, bem como na tradição antiga do Yoga, que há séculos tem estudado as relações entre a respiração e a mente.

Palavras chave: Respiração, emoção, mente, bioenergética, yoga.

A Psicologia Corporal e a linguagem da natureza

Uma das maiores dificuldades com que a psicologia ocidental se depara é a de encontrar meios para promover mudanças significativas no indivíduo, mudanças que requerem o silêncio do pensar para que o âmago do coração possa ser efetivamente tocado. No âmbito das psicoterapias onde predominam as técnicas verbais, muitas vezes carecemos de recursos que tenham o poder de acessar as camadas mais profundas da mente, onde residem as emoções e os sentimentos mais fortemente arraigados à personalidade e ao caráter.

Para nós ocidentais, que estamos muito aprisionados ao mundo da razão e da lógica, é difícil reconhecer e entregar-se às experiências que estão para além do mundo dos nomes e das formas. Assim, é um fato muito conhecido para todo psicoterapeuta a limitação que a palavra e o pensamento impõem quando se trata de acessar o mundo dos sentimentos, onde habitam coisas que não podem ser nomeadas. Palavras e pensamentos atuam na esfera da razão e da lógica, e nem sempre podem estabelecer uma ponte até nossos sentimentos, e o que dizer de alcançar o mundo irracional das forças da natureza que pulsam em nós. Na verdade, na maior parte das vezes, o uso da palavra e da razão nos afasta do mundo do sentimento, e podem se tratar de bons aliados quando se trata de nos defendermos destes sentimentos.

Tendo em vista superar esta limitação, notamos o avanço das psicoterapias corporais, que há algumas décadas têm desenvolvido um olhar sobre o homem visando transcender o mundo do verbal e imergir de volta na lógica da natureza, onde pulsam as energias da vida antes que os nomes possam ser dados, onde os sentimentos e as sensações falam por si mesmos, sem que o pensamento intervenha. Para tanto, a psicologia corporal precisou se valer de métodos que deixavam um pouco de lado a expressão verbal, para se concentrar no trabalho com o corpo e suas expressões vitais não-verbais.

Foi assim que primeiramente Reich se debruçou sobre a observação do corpo, sobre sua fisiologia densa e sutil, percebendo correspondências entre emoção e músculos, entre emoção e glândulas, entre emoção, contração e expansão da energia vital. Foi assim que as técnicas para mobilizar o caráter e a personalidade passaram a se valer da mobilização do corpo, de seus músculos, de sua capacidade de expressar prazer e fazer a energia fluir de maneira espontânea.

A partir de Reich, muitos outros pesquisadores vieram, e apoiados nesta mesma lógica de que a fisiologia do corpo é a própria expressão da vida e da mente, desenvolveram diferentes portas de acesso ao mundo das emoções e dos sentimentos, valendo-se de uma ou outra função do organismo. Proponho-me aqui estudar uma destas funções, que acredito ser uma das mais importantes: o fluxo vital da respiração.

Respiração, uma porta de acesso à psicologia da vida

Em um texto da antiga tradição do Yoga encontramos a afirmação de que “o prana é o senhor da mente” (yogendra, 2002, p.80). A palavra Prana denota a energia vital, que segundo a tradição do yoga, tem como sua expressão máxima no ser humano o ato da respiração. Assim, o aforismo nos diz que a energia vital manifesta na respiração é a base da atividade da mente, e que por isso as modificações da mente são acompanhadas de modificações da respiração, e por sua vez, as modificações da respiração promovem modificações na mente.

A mente e o prana estão relacionados entre si como o leite e a água, sendo suas atividades coincidentes, se houver movimento de prana, haverá movimento mental; se houver atividade mental, haverá movimento de prana. (Yogendra, 2002, p. 79)

Esta afirmação é algo empiricamente comprovável para todo aquele que se detiver em observar esta união entre mente e alento vital. Desta forma, devemos tomá-la como a lei básica que norteia toda a psicologia da respiração que buscamos esboçar aqui.

Alexander Lowen, criador da corrente contemporânea de psicologia corporal chamada Bioenergética, parece concordar com este postulado. Ao descrever a respiração de indivíduos em diferentes condições, expressa como um indivíduo deprimido apresenta um “rebaixamento de todas as suas funções energéticas: a respiração está diminuída, o apetite e o impulso sexual debilitados” (Lowen, 1982, p.42). Por sua vez, afirma como o “prazer e satisfação estimulam o organismo a aumentar sua atividade metabólica, que imediatamente se reflete em uma respiração mais profunda e plena”. (Lowen, 1982, p.43)

Se continuarmos a estudar as relações entre estados emocionais e respiração, podemos extrair daí muitas leis do funcionamento natural do organismo.

Tomemos primeiramente o critério da profundidade da respiração. Se observarmos a fisiologia natural do corpo, notaremos como junto à manifestação de emoções como o medo intenso, o pânico ou a raiva, por exemplo, a respiração tende tornar-se mais rápida e superficial, eventualmente podendo ser completamente bloqueada ou retida. O extremo inverso acontece quando sentimentos opostos se manifestam, em estados de profunda paz, de amorosidade ou de segurança, a respiração tende a tornar-se mais profunda, lenta e desobstruída. Disso extraímos a lei de que sentimentos experimentados como prazerosos são acompanhados de uma respiração profunda e desobstruída, ao passo que sentimentos desprazerosos são acompanhados de uma respiração superficial e cheia de retenções.

Tomando como base a influência mútua entre os estados mentais e a respiração, poderíamos sugerir que não apenas a experiência dos estados emocionais supracitados determina a condição da respiração, mas que também tais estados mentais podem ser criados ou modificados se voluntariamente trabalhássemos com seu padrão de respiração correspondente. Por exemplo, se queremos que um indivíduo se dirija de um estado de medo a um estado de paz, atuar sobre sua respiração modificando-a de uma condição superficial para uma respiração mais lenta e profunda demonstra ser uma prática de extrema eficácia. Segundo a tradição antiga do Yoga, todos os estados de profunda meditação, onde prevalecem a paz e a serenidade, são preparados através de exercícios respiratórios (pranayamas) que conduzem o praticante a alcançar sua capacidade plena de respirar e manter sua respiração em nível profundo e perfeitamente regular, sem oscilações. Este trabalho sobre a respiração abre ao meditante a possibilidade de observar suas emoções conscientemente e conscientemente apaziguá-las, libertando-o de suas influências nocivas e abrindo espaço para o estado de paz.

Segundo a Bioenergética, existe uma identidade fundamental entre respiração e emoção. Esta identidade é expressa na observação de que a repressão de sentimentos ocorre a nível fisiológico pela própria repressão ou contenção da respiração:

Para garantir a própria sobrevivência sob a égide do amor parental, a melhor forma que o corpo encontra para reprimir as “emoções proibidas” é contendo a respiração. Fisiologicamente, conter a respiração diminui todo o metabolismo do organismo, que, com isso, também tem sua sensibilidade diminuída. (Volpi e Volpi, 2003, p.15)

Deste modo, se queremos resgatar emoções reprimidas, um dos recursos utilizados pela Bioenergética é o de voluntariamente aumentar a profundidade da respiração, criando assim uma ponte de acesso às camadas mais profundas da mente onde os sentimentos mais profundos estão guardados.

Disto extraímos uma outra lei, que é a de que a expansão da respiração equivale à expansão da consciência, sendo o oposto igualmente verdadeiro, a retração da respiração equivale à diminuição da consciência. Deste modo, a expansão da respiração pode ser usada como instrumento para trazer conteúdos inconscientes para a consciência, uma vez que amplia o alcance desta última.

Segundo Volpi e Volpi:

Reduzir a absorção de oxigênio mantém as emoções sob controle, mas, conseqüentemente, reduz a energia vital da pessoa. Recuperar o nível dessa energia é fundamental para que seja possível liberar os bloqueios à expressão das emoções. (Volpi e Volpi, 2003, p.15)

Observemos a respiração sobre outro ponto de vista: ao trabalharmos exercícios respiratórios com diferentes indivíduos, é possível notar neles diferenças significativas entre a forma como executam a inspiração e a exalação. Se meditarmos sobre estas duas etapas do ciclo respiratório, perceberemos como inspirar representa algo que trazemos para dentro, exalar significa algo que colocamos para fora. Assim, se mantivermos o princípio de identidade entre emoção e respiração, poderíamos postular uma relação entre a forma como o indivíduo se relaciona afetivamente com o mundo e a forma como inspira ou exala. Deste modo, poderíamos observar como indivíduos mais introvertidos, que tendem a conter ou a guardar mais seus sentimentos, podem apresentar uma inspiração profunda, mas apresentar dificuldades em sustentar a exalação na mesma profundidade, por isso tendem a reter mais ar residual dentro dos pulmões. O contrário também poderia ser objeto de observação: indivíduos mais extrovertidos, que tendem a ser mais “explosivos”, mas que porém carecem de interiorização, podem apresentar mais facilidade em expirar vigorosamente, apresentando maior dificuldade em manter uma inspiração profunda. Careço de evidências clínicas suficientes que comprovem tal hipótese, mas observando um grupo ainda pequeno de indivíduos em práticas de exercícios respiratórios, percebo ser ela algo a considerar. Desta forma, poderíamos trabalhar a capacidade de introversão e extroversão de um indivíduo trabalhando exercícios com variações sobre o ato de inspirar e exalar.

Respiração, meditação e flexibilização do caráter

Uma última consideração que gostaria de fazer sobre o ato da respiração envolvem hipóteses mais ousadas e experiências que só podem ser constatadas porquanto vividas, e carecem da possibilidade de experimentação: trata-se de experiências de meditação profundas criadas a partir da respiração.

Voltando ao aforismo do Yoga que afirma que o prana é o senhor da mente, entendemos que o pranayama (o exercício sobre o prana) visa conduzir a um estado de transcendência da mente, ou mais precisamente falando, de superação dos condicionamentos e limitações da mente. Sobre isso gostaria de fazer primeiro algumas considerações. Entendemos a mente como o receptáculo de experiências, uma espécie de disco rígido – comparando a um computador - onde um programa chamado personalidade está gravado. Em psicologia corporal preferimos usar o termo caráter, que é a forma como a personalidade vem a se expressar no comportamento.

Se observarmos uma criança recém nascida, podemos detectar que apesar de não haver nela uma personalidade e um caráter já completamente formados, seu organismo funciona segundo leis naturais e orgânicas e se comporta segundo estas leis, que são a própria inteligência e sabedoria da natureza ou da vida. Com a formação da personalidade e do caráter, estas leis naturais do comportamento tendem a se modificar e a se moldar ao padrão do programa cultural instaurado sobre o organismo. Este programa é acompanhado então por padrões rígidos de conduta, padrões rígidos de afeto e de expressão, e condicionam a fisiologia e também a respiração a padrões específicos.

Segundo toda a vertente da psicologia ocidental, este programa chamado personalidade e caráter uma vez instalado não pode ser superado, senão que apenas parcialmente modificado ou flexibilizado. Porém, experiências profundas com técnicas de meditação sugerem episódios em que este programa mental parece estar completamente dissolvido, numa experiência em que a consciência recobra seu estado não condicionado.

Dentro das práticas do yoga, existem meios para se alcançar este estado através do uso da respiração. A técnica consiste em levar a respiração a uma cessação espontânea (kevala kumbhaka) após tê-la tornado o mais profunda e lenta possível durante um bom período de tempo, mediante um exercício gradativo. É claro que isto é possível apenas após longa experiência e dedicação à prática, mas em todo caso, é uma experiência humana real que desafia nossos paradigmas e nossa compreensão sobre a vida do corpo. Neste momento em que a respiração espontaneamente – e não por qualquer tipo de repressão – deixa de acontecer, o programa que acompanha a mente parece deixar de existir, embora todos os sinais de consciência permaneçam nítidos e a fisiologia do sistema vegetativo continue funcionando.

O que mais nos interessa aqui é que se nota em muitas destas experiências que os padrões de couraças e as patologias crônicas mantidas por estes padrões tendem a cessar, fazendo o corpo recobrar sua fisiologia natural saudável durante o estado de transe. Esta experiência tem sido descrita por toda uma série de yogues e praticantes dedicados da arte da meditação.

Segundo o Hatha Yoga Pradipika (Yogendra, 2002, p.79-80):

As duas causas da atividade mental são a energia vital e as propensões subconscientes (prana e vásana); a inatividade de uma delas provoca a inatividade da outra. (...) A natureza da mente é o movimento contínuo, assim como a natureza do mercúrio; quando ambos ficam imóveis, há algo em este mundo que não possa conseguir-se? (...) Quando o mercúrio é imobilizado, destroem-se as doenças.

Penso que este estado de transe experimentado pela meditação profunda seja algo similar ao estado que Reich descrevia como o reflexo do orgasmo, uma condição que, apesar de impermanente, levam as tensões e padrões de caráter à dissolução momentânea. Acredito que, embora estes episódios não sejam soluções definitivas para os bloqueios e patologias vinculadas ao caráter, a possibilidade de sua ocorrência na vida do organismo serve para reaproximá-lo cada vez mais de seu estado natural não condicionado.

Quanto à aplicabilidade da respiração para propiciar estes estados de consciência, penso que não seja algo aplicável a todos os indivíduos, pois que nem todos teriam a aspiração e dedicação suficientes para trabalhar sobre sua respiração, de modo a adentrar em tais estados de transe. Porém, conclui-se com estes exemplos como a respiração pode ser uma ferramenta essencial para propiciar equilíbrio mental e recobrar a auto-regulação natural do organismo.

Marcos Teixeira Elias (Mahamuni das)

Psicólogo junguiano, formado em psicologia pela Universidade Federal do Paraná, cursando especialização em Psicoterapia Corporal pelo Centro Reichiano, professor de Yoga, co-diretor do centro de Yoga Gandiva Ashram, membro da Sociedade Internacional para Consciência de Krishna.

Referências Bibliográficas

LOWEN, A. Bioenergética. São Paulo: Summus Editorial, 1982.

VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Reich: da psicanálise à análise do caráter. Curitiba: Centro Reichiano, 2003ª.

VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Reich: da vegetoterapia à descoberta da energia orgone. Curitiba: Centro Reichiano, 2003b.

VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Reich: A análise bioenergética. Curitiba: Centro Reichiano, 2003.

YOGENDRA, S. Hatha Yoga Pradipika. Florianópolis: Instituto Dharma Yogashala, 2002.

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1 Por profundidade da respiração me refiro à capacidade de ampliar o volume de ar inspirado e exalado, bem como prolongar a duração do ciclo respiratório na linha do tempo.

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