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Curitiba - Paraná

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JUNG E REICH, UM DIÁLOGO

Resumo: o texto faz um paralelo entre a obra de Jung e Reich, ressaltando, através de uma análise filosófica e alegórica, o quadro que estes dois autores pintaram da natureza humana e de sua condição no mundo. A análise feita é a de que em ambos encontramos a idéia de uma natureza humana original e criativa, que se esconde por detrás do homem neurótico e massificado, homem que há muito tempo perdeu sua conexão com a totalidade da vida e com suas próprias raízes mais profundas.

Palavras chave: Jung, Reich, natureza, Self, Orgone.

Introdução:

Homens de ciência muitas vezes traçam seus caminhos de forma solitária, pois o encontro com a verdade parece exigir o afastamento do senso comum, compelindo o buscador a mergulhar por mares nos quais a maioria dos homens não ousaria mergulhar. No âmbito da psicologia, encontramos alguns destes mergulhadores, que por quão obstinados estavam por descer às profundezas da alma, cruzaram-se pelos mesmos caminhos e no entanto não se perceberam. Tal é o caso de Jung e Reich. Em toda a história da psicologia, praticamente nenhum registro existe sobre a possibilidade de que Jung e Reich tenham em algum momento dirigido pessoalmente a palavra um ao outro. Aos assíduos estudiosos e admiradores destas duas grandes personalidades, cabe apenas vislumbrar, remontando ao legado escrito, como poderia ter sido o diálogo entre eles, se tivessem sabido apreciar a obra um do outro a ponto de reconhecer nelas uma mesma intenção.

Assim, proponho-me aqui tecer alguns paralelos entre a obra de Jung e Reich, dando destaque à visão do homem, aos quadros da natureza humana por eles pintados. Ao observarmos estes quadros lado a lado, podemos perceber cores e traços semelhantes, o homem natural e o homem espiritual se encontram, o físico e o metafísico se unem, formando uma paisagem da totalidade humana, paisagem na qual a tragédia deve ceder lugar à liberdade.

Desenvolvimento:

Em 1926, Reich debatia-se com os círculos psicanalíticos convencionais, que não admitiam o enfoque sobre corpo e o embasamento somático no tratamento analítico. Reich percebia como o corpo humano encerrava a problemática das neuroses que os psicanalistas até então julgavam ser um problema estritamente psíquico. Este foi o motivo de seu distanciamento de Freud: enquanto Freud abandonava paulatinamente as bases somáticas de sua teoria, postuladas em termos econômicos de quantidade e descarga de libido, Reich as tomava em máxima consideração, defendendo a idéia de que a patologia e o conflito psíquico estão intimamente ligados ao fluxo ou à contenção de energia no organismo. A neurose, para se estabelecer, dependeria assim da energia sexual contida, que era o substrato biológico de base para a sua existência e manutenção (Volpi, 2003). Fazendo alusão ao fluxo das águas de um rio, Reich explicava sua teoria sobre as leis energéticas na formação da neurose:

A força, a forma e a largura de um sistema fluvial são determinadas principalmente por suas fontes. Se as nascentes são abundantes e estão no alto das montanhas, e se talvez forem geleiras, o fluxo será mais cheio e forte, a corrente mais rápida e a energia acumulada será maior do que se as nascentes forem escassas e em terras planas. O importante, a respeito de um rio, em termos de ciência natural, não é se pode transportar cargueiros ou barcos pequenos, nem se faz cinco ou dez curvas, nem se sua foz se divide em duas ou oito bocas, nem se tem dez ou cem milhas de extensão. Todas essas características dependem, fundamentalmente, de apenas dois fatores: a abundância e a força das nascentes e o tipo de terreno que o rio deve atravessar. Se a quantidade de água que escoa pelo sistema fluvial sempre corresponder à quantidade que vem das nascentes, então a energia da queda sempre será equivalente. Não flui mais para dentro do rio do que pode fluir para fora. (REICH apud CONGER, 1993, p.43)

Reich deixava entender que o homem é este rio, suas águas são sua energia - que posteriormente denominaria Orgone – o tipo de terreno é o corpo, por onde a energia pode fluir a partir de suas fontes de forma harmônica, ou pode ser bloqueada e estagnada, assim como acontece com as águas de um rio represado. Para que uma represa seja criada, muitos danos devem ser causados à vida natural daquele rio. Da mesma forma, a neurose seria como uma represa que contém o fluxo natural da energia pelo corpo. Esta contenção neurótica, para Reich, seria a fonte da maldade no homem, pois despertaria dentro de si forças destrutivas e antinaturais (Conger, 1993).

Reich acreditava que o homem, em sua essência, seria naturalmente propenso a uma vida saudável, auto-regulada, espontânea e em harmonia com o mundo, se lhe fosse permitido a liberdade de manifestar sua propensão natural de amar. Contudo, ao deparar-se com uma educação repressora, pronta para violar seus afetos e impulsos naturais, o homem reagiria se contraindo, erigindo em torno de si uma armadura de tensões musculares crônicas a que Reich chamou de “couraça” (Volpi, 2000). Desta forma, passaria a experimentar o mal e a neurose sobre a forma de impulsos secundários, distorções mórbidas de seus impulsos naturais reprimidos.

É assim que, fazendo uma analogia entre a natureza humana original e Deus, e entre sua natureza distorcida e o diabo, Reich escreve:

O homem tem considerado o “diabo” tentador. Por que, devemos então indagar, ele não pensou que Deus é “tentador”? Se o diabo representa a natureza distorcida e Deus é a natureza primitiva, verdadeira, por que o homem se sente tão mais atraído pelo diabo do que por Deus? A resposta, mais uma vez, é que o diabo é tentador e tão fácil de seguir porque representa os impulsos secundários, que são tão acessíveis. Deus é tão aborrecido e distante porque representa o cerne da vida, que foi tornado inacessível pelo encouraçamento. (REICH apud CONGER, 1993, p.25)

Assim, para Reich, a expressão natural do homem livre, espontâneo, criativo, encerraria algo de divino, pois tal forma de expressão estaria em harmonia com o cerne da vida, Deus, ou o que ele chamava de oceano de energia Orgone. Ao contrário, o homem que ele observava em nossa sociedade era aquele que deixara de ser ele mesmo, um homem artificial e distanciado da fonte da vida, e que por isso estava mais próximo do diabo, da natureza que se distorceu em impulsos secundários e destrutivos, resultado da contenção do fluxo espontâneo e natural da energia primeira. A esta contenção Reich chamou encouraçamento, processo no qual se formam armaduras de tensão sobre o corpo, reflexo do homem inibido, tolhido em suas várias potencialidades, que não pode expressar-se com naturalidade e por isso experimenta-se separado do sentimento de unidade com o mundo:

O paciente neurótico enrijeceu-se na periferia do corpo, ao mesmo tempo que reteve sua “vitalidade” central e as exigências desta. Ele não está à vontade “em sua própria pele”, é “inibido”, “incapaz de realizar-se”, “bloqueado”, como se uma parede o detivesse; “falta-lhe contato”, ele se sente “tenso a ponto de explodir”. Se esforça ao máximo “para ir ao mundo” mas está “travado”. (REICH apud CONGER, 1993, p.61)

Para Reich, deste triste quadro, restaria o homem massificado, pois àquele que não pode caminhar por si mesmo, fica apenas a opção de acompanhar as multidões. O homem neurótico perdeu sua bússola interna, e pede gentilmente que a sociedade o guie, não mais consegue identificar suas próprias leis naturais, e por isso clama por leis externas, ignora que dentro de si há um sentido inato de auto-regulação, e por isso perde-se nos extremos de uma vida de ações mecânicas e estereotipadas.

O homem criado pela autoridade e por ela tolhido não tem conhecimento da lei natural da auto-regulação; não tem confiança em si. Teme sua sexualidade porque nunca aprendeu a viver de modo natural. Sendo assim, declina de toda responsabilidade por seus atos e decisões e exige ser dirigido e manobrado. (REICH apud CONGER, 1993, p.26)

Assim, Reich vai gradualmente traçando um retrato do homem cindido em três camadas (Conger, 1993): uma camada periférica, representando o homem educado e polido, que atua submissamente em seu papel social; uma camada secundária, formada pela couraça, com seus conseqüentes impulsos anti-naturais e destrutivos; e em essência, uma camada central, em que se faz presente a natureza humana espontânea, desapegada, capaz de guiar-se e regular-se por suas próprias leis internas, e sobretudo capaz de amor e entrega. Para Reich, o homem que conseguisse viver nesta camada central seria o homem livre, maduro, autônomo, responsável por si mesmo e por isso saudável. Seu protótipo abrigar-se-ia na figura de Cristo (Reich, 1991), um homem que pôde traduzir o sentido de uma vida plena. Já o homem preso às demais camadas, seria o retrato da normalidade patológica da humanidade, que padece sempre de algum grau de neurose e que está distanciada de sua essência, vivendo sempre segundo os estereótipos criados pelas suas diversas culturas.

Assim, Reich via como objetivo de seu trabalho psicoterapeutico flexibilizar as camadas periférica e secundária, enfraquecer a couraça para resgatar o homem autêntico, capaz de amar e criar. Visava fazer isso devolvendo o homem à sua lei natural de auto-regulação, pois acreditava que a natureza curava-se por si mesma, pois tudo o que é vivo pulsaria segundo uma melodia que lhe é inerente (Conger,1993). Mas o homem moderno há muito tempo deixara de acreditar nesta sabedoria que lhe era própria.

Jung também buscava a natureza positiva e sadia do homem, e embora considerasse o bem e o mal coexistindo lado a lado na psique humana enquanto categorias ontológicas, acreditava que a psique apresentava um movimento natural para o equilíbrio e a transcendência, e que este compelia o homem a emancipar-se da vida unilateral do ego para ampliar sua consciência aos vastos domínios da vida supra-pessoal, coletiva, da alma humana como um todo.

Jung acreditava que o sofrimento humano era em grande parte resultado do confinamento do homem em sua própria individualidade, em seu próprio ego limitado, que tende a ver o mundo sempre sobre uma ótica estritamente unilateral. Acreditava que a psique como um todo estava sempre a atuar sobre o ego para libertá-lo de seus limites e forjar uma ampliação da consciência cada vez maior. Para Jung, tudo poderia se resumir na lei básica de que a alma humana caminha sempre em direção a um sentido de totalidade, de transcendência de seus próprios limites.

Assim como Reich, Jung também se distanciou de Freud por divergências concernentes à teoria da libido. Em 1912, com a publicação de “Metamorfose e Símbolos da Libido”, Jung rejeita a teoria da libido enquanto energia meramente sexual para elevá-la à categoria de energia psíquica como um todo, em sentido mais amplo. Posteriormente Reich admite sua concordância com Jung ao assinalar a libido como uma energia única, um substrato comum a todos os instintos humanos, pois este conceito se aproximava da energia única que ele chamou pelo nome de Orgone (Conger,1993). A diferença contudo, é que Jung nunca ousou qualificar a libido em termos físicos, como o fez Reich. Pois enquanto este estava unido à verdade da natureza, Jung, como fenomenólogo, considerava que a única realidade existente era a realidade da psique, e que o mundo físico era uma categoria inserida dentro da realidade da psique. Por isso Jung mantém-se atrelado ao conceito de libido enquanto energia psíquica. Ambos, contudo, seja através da natureza, seja através da psique, vislumbraram a singularidade de uma energia única e onipresente.

Também nesta época Jung postula a existência de camadas do inconsciente que estavam além da esfera de um inconsciente pessoal, contendo em si um arcabouço de conteúdos humanos coletivos, que se manifestavam nos mitos e símbolos semelhantes e recorrentes das mais diversas culturas de todos os tempos. A esta camada vai chamar de inconsciente coletivo. Ao contrário de Freud que postula o inconsciente enquanto um apêndice da consciência, uma região criada a partir da repressão de experiências vividas, Jung considera o inconsciente coletivo como a matriz original da psique, sempre existente, de onde emerge o ego e o sentimento de individualidade, os quais são apenas uma ilha num vasto oceano de uma psique suprapessoal, universal.

Desta forma, também Jung visava reintegrar o homem à totalidade do universo. Porém, diferente de Reich que buscava cumprir este propósito através da natureza, Jung buscava fazê-lo através da integração dos opostos na psique, mediante a aproximação do mundo da consciência ao mundo do inconsciente. À totalidade da psique composta por consciente e inconsciente Jung designou pelo nome de Self (ou si mesmo) e ao processo mediante o qual o homem aproxima-se desta totalidade designou por processo de individuação:

Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por ‘individualidade’ entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir ‘individuação’ como ‘tornar-se si-mesmo’ (verselbstung) ou ‘o realizar-se do si-mesmo’ (selbstverwirklichung)”. (JUNG, 2002, p.266)

Embora falasse sobre tornar-se si-mesmo, Jung sempre afirmou que a meta do processo de individuação não seria atingir um objetivo final, mas estaria no próprio ato de caminhar, num processo contínuo de dirigir-se à própria essência. Neste processo, estaria em jogo a máxima coragem de viver e de realizar o potencial inerente que o sujeito carrega consigo, o que o liberta para além dos valores e estereótipos das massas, tornando-o cada vez mais um ser diferenciado e autêntico. Jung acreditava que cada homem encerra em si algo de criativo e original, que o caracteriza e o realiza enquanto ser único. Porém, assim como Reich acreditava, este homem se encontra suprimido por detrás de uma cultura de massa, que o castra e o deixa aquém de si mesmo:

Somente será possível que alguém se decida por seu próprio caminho, se esse caminho for considerado o melhor. Se qualquer outro caminho fosse considerado melhor, então em lugar da própria personalidade haveria outro caminho para ser vivido e desenvolvido. Os outros caminhos são as convenções de natureza moral, social, política, filosófica e religiosa. O fato de as convenções de algum modo sempre florescerem prova que a maioria esmagadora das pessoas não escolhe seu próprio caminho, mas a convenção; por isso não se desenvolve a si-mesma, mas segue um método, que é algo de coletivo, em prejuízo de sua totalidade própria. (JUNG, 1999, p.296)

É deste modo que Jung traça seu quadro da problemática humana:

Na mesma medida em que alguém se torna infiel à sua própria lei e deixa de tornar-se personalidade, perde também o sentido de sua própria vida. Por sorte a natureza bondosa e indulgente não chega a propor à maioria das pessoas essa pergunta fatal a respeito do sentido da própria vida. E se ninguém pergunta também ninguém precisa dar resposta. (JUNG, 1999, p.314)

Jung buscava trazer o homem de volta à sua voz interior. Via o homem civilizado aprisionado pelo mundo da razão, mundo este que cabia apenas nas dimensões de seu ego, mas que nada podia dizer sobre o mundo irracional e criativo da vida inconsciente, que está sempre a ultrapassar os limites da lógica e que porta a mensagem de um mundo carregado de símbolos vitais.

Para Jung, a voz interior, que emana do inconsciente, é a garantia de um sentido para a vida. Por isso, o homem neurótico seria aquele que perdeu o contato com esta voz, vinda das fontes irracionais do inconsciente, e que padece de um aprisionamento em seu próprio ego. Este homem neurótico, que se julga o controlador e o conhecedor de tudo, percebe os conteúdos do inconsciente apenas enquanto uma invasão de imagens sem sentido e indesejadas, e é incapaz de reconhecer nelas o fluxo natural de uma vida que pede por horizontes mais vastos:

Deste modo, a neurose é uma proteção contra a atividade interior da alma ou também uma tentativa de esquivar-se à voz interior e à designação, pela qual se paga um preço muito alto. Essa ‘excrescência doentia’ constitui aquela atividade objetiva da alma que, independentemente da vontade consciente, gostaria de comunicar-se com a consciência por meio da voz interior a fim de conduzir o homem de volta à sua totalidade. Por trás da distorção neurótica se oculta a designação, o destino e a formação da personalidade, a realização completa da vontade vital inata em todo indivíduo. O homem desprovido de amor ao destino (amor fati) é o neurótico. (JUNG, 1999, p.313)

Nisto vemos algo de muito semelhante às convicções de Reich: há uma vida mais completa, mais íntegra e autêntica por detrás da vida parcial que o homem neurótico é capaz de experimentar. Esta vida não é patológica, mas sadia no mais estrito sentido da palavra, pois assim como há a ordem e equilíbrio no todo, um homem sintonizado com o todo também pode experimentar ordem e equilíbrio dentro de si mesmo. O ponto central contudo, é que este equilíbrio do todo não é de maneira alguma estático, inerte, mas uma constante transformação. Para Jung, não haveria natureza humana sadia sem transformação constante, o movimento e o ‘vir a ser’ seriam imperativos da psique. A neurose seria precisamente o enrijecimento e a falta desta capacidade de "vir a ser".

Voltando à analogia do rio, agora é Jung quem fala:

O caminho por descobrir é como algo psiquicamente vivo, que a filosofia clássica chinesa denomina ‘Tao’, e comparando-o a um curso de água que se movimenta inexoravelmente para a meta final. Estar dentro do Tao significa perfeição, totalidade, desígnio cumprido, começo e fim, e a realização completa do sentido inato da existência. (JUNG, 1999, p.323)

A meta da psicologia junguiana é fazer com que o homem ultrapasse suas próprias prisões, transcendendo os limites de uma vida pessoal egocentrada, e ao voltar-se à sua voz interior e ao seu desígnio, que ele possa aceitar o fluxo da vida colocando-se a serviço de uma força que está acima de seu próprio ego: esta força maior é o símbolo do Self, a totalidade que fora chamada de Deus pelas diversas culturas.

Conclusão

Reich era dotado de um espírito estritamente científico. Manteve-se sempre próximo das ciências naturais, e por isso sua psicologia foi um mergulho nos mistérios do corpo humano, da energia que ali pulsava, energia que podia ser sentida e percebida a nível físico, e em cujo fluxo estavam escritas as leis da sanidade ou insanidade do homem moderno. Jung era um homem religioso, não no sentido dogmático mas no sentido de alguém que intuía a presença do divino em todas as coisas. Estava preocupado com o problema espiritual do homem, o qual havia perdido seu ponto de contato com o transcendente. Sua psicologia foi assim um mergulho aos mais profundos recônditos da psique, do inconsciente coletivo, em busca daquilo que orientava o sentido da vida humana. Reich, em seu percurso pelo mundo físico, encontra-se com a energia que sentia permear todas as coisas, energia que era a própria vida e que colocava o homem em comunhão incondicional com o universo. Jung, em seu trajeto pela psique, desce aos fundos onde matéria e espírito se integram, o homem mortal e o ser ilimitado permeiam-se mutuamente. Embora tenham percorrido caminhos diferentes, ambos incumbiram-se da mesma missão: reintegrar o homem de volta à sua totalidade.

Assim, ao fim percebemos que Jung e Reich se encontraram na encruzilhada em que a natureza fala ao homem. Eles puderam escutá-la atentamente e a mensagem que trouxeram poderia exprimir-se num ato de devoção: a verdadeira vida humana consiste em entregar-se às leis de uma vida maior, de uma força suprema que nos convida a dançar conforme sua música. Ao rejeitarmos a dança, padecemos, mas ao aceitarmos o convite, continuamos a viver.

Marcos Teixeira Elias

Psicoterapeuta junguiano, formado em psicologia pela Universidade Federal do Paraná, pós-graduando em Psicoterapia Corporal pelo Centro Reichiano, professor e co-diretor do centro de Yoga Gandiva Ashram.

Referências Bibliográficas

CONGER, J. P. Jung e Reich: o corpo como sombra. São Paulo: Summus, 1993.

JUNG, C. G. O Desenvolvimento da Personalidade (Vol.XVII) 7ª. edição. Petrópolis: Editora Vozes, 1999.

JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente (Vol.VII/2) 16ª.edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.

JUNG, C. G. A Prática da Psicoterapia (Vol.XVI/1) 8ª. edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.

REICH, W. O Assassinato de Cristo. 4ª. Edição. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Reich: da psicanálise à análise do caráter. Curitiba: Centro Reichiano, 2003a.

VOLPI, J. H. Psicoterapia Corporal: Um trajeto histórico de Wilhelm Reich. Curitiba: Centro Reichiano, 2000.

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