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Curitiba - Paraná

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Tempo de Yoga

Por Mirko da Costa

Mais e mais pessoas atualmente dedicam um tempo de suas vidas para praticar o exercício do yoga.

Geralmente no início, a pessoa tem uma informação vaga e estereotipada sobre algum assunto que leu ou ouviu falar relativo ao yoga que, por sua vez, despertou a curiosidade e a vontade de saber mais. Aí então, procura um professor para aprender e propõe-se a agendar um tempo de sua rotina diária para estar numa sala ou escola praticando os exercícios recomendados. Com o tempo, o yoga vai mostrando-se presente também fora da sala, nos outros momentos da vida cotidiana. Para aquele que busca o yoga, a prática constante é a própria chance do sucesso. Muito depende da habilidade na administração da agenda e dos compromissos, dedicando sempre uma hora do dia para a prática.

Mas como abrir uma brecha constante entre as atividades corriqueiras para dar espaço à prática do yoga?
O tempo é uma dimensão elástica, e não linear como parece no relógio, onde muitas vezes a gente queria que tivesse mais ou menos daquelas mesmas horas de sempre. Realmente não passa de um aspecto psicológico da mente humana, pois o momento real é sempre o presente, e as perspectivas de passado e futuro são apenas abstrações subjetivas.

É engraçado de ver como as pessoas administram o seu tempo, às vezes você vê uma pessoa que não faz muitas coisas, mas nunca tem tempo para nada, enquanto outra não faz nada da vida, mas está em todas e sempre tem tempo para tudo.

A sensação de tempo vem da capacidade de perceber que uma situação qualquer que você reconheceu e ainda lembra já passou, não existe mais, pois você agora está em outra, um pouco parecida com a primeira, mas também um tanto diferente. A mente humana tem a capacidade de observar e perceber essas transformações de momento em momento e construir uma teia que costura a seqüência de encadeamento dos momentos, conferindo à ela um dado sentido.

A atenção é o elemento fundamental para perceber o tempo como uma dimensão de transformação que está entre os momentos assim como a respiração situa-se entre os pulmões vazios e cheios.

A distração é um veneno que faz com que nos desliguemos dessa preciosa qualidade do tempo, e nos desloquemos para a ilusão cristalizada do passado ou duvidosa do futuro, ausentando-nos do aqui agora. Enquanto isso, a realidade vai movendo-se de uma forma estranha, misteriosa e imperceptível para o distraído.

É possível abstrair a dimensão do tempo sem sair do presente, sem desconectar. Quando isso ocorre, o tempo vira uma experiência atemporal, daquelas do tipo quando você está fazendo alguma coisa na qual você está intensamente envolvido e concentrado, daí olha para um relógio (por acaso) e diz com empolgação: Puxa! Como passou o tempo e eu nem percebi. O distraído, por sua vez, sempre de olho no relógio, diz: Que droga, parece que o tempo não passa nunca! Portanto, o estado de yoga não pode ser medido com precisão através da referência diária do relógio das horas e minutos, ainda que o compromisso com a prática diária enquadre-se dentro de um certo horário.

De modo prático, a pessoa atenciosa tende a administrar uma certa direção consciente para suas ações, de modo que possa fluir através da real dimensão do tempo. Enquanto isso, o distraído está à deriva na correnteza dos acontecimentos, sem saber o que fazer e para onde ir.

Observa-se que grandes obras são constituídas de seqüências de pequenas ações interligadas, que se sobrepõe umas às outras a cada momento que passa. Portanto, o tempo é uma dimensão que precisa ser construída. A construção do tempo é algo semelhante ao trabalho de encher uma caixa d’água furada com apenas um balde. Constantemente tem-se que sair para encher o balde e despejá-lo no reservatório, senão a água da vida escorre pelo ralo.

A prática de yoga serve para aprender a dinamizar as ações de modo a encher com a água da vida o reservatório do tempo. A hora dedicada à prática do yoga faz render mais as outras horas do dia. O iogue gasta menos tempo e energia para fazer mais coisas durante o dia. Quanto mais isso acontece, mais a pessoa atenta e consciente aproveita o que a vida tem para oferecer.

A Dimensão do Tempo no Ashtanga Vinyasa Yoga

Dentre os diferentes métodos do yoga, o Ashtanga Vinyasa é um que tem despertado grande interesse das pessoas do ocidente, devido à beleza desafiante das séries de ásanas, concatenadas de forma tão fluída e concentrada através da respiração. Num mundo onde as belas formas são apreciadas e todos precisam correr contra o tempo, o trabalho intenso no corpo físico têm valor demérito.

A partir do horário de início da prática, o tempo é medido em respirações, e isto faz com que o tempo real seja vivenciado plenamente, enquanto a atenção está no presente. O relógio interno é bem diferente do relógio cartesiano. O relógio de pulso não condiz com o tempo das pulsações do coração. O ritmo do coração varia em função do momento. O ritmo do relógio é determinantemente inflexível, e requer que os momentos adaptem-se a ele.

O tempo do sádhana (a prática diária do yoga) é um espaço do dia especial para desconectar dos compromissos com o mundo do relógio e vivenciar a dimensão interior do tempo, o mundo da auto-observação, da luz sobre o universo de sensações, pensamentos, emoções, condutas e valores que configuram nossa percepção agora e a todo o momento.

O vinyasa, ou a sincronia da respiração com o movimento do corpo, faz com que o tempo flua num ritmo que é único, pois cada um experimenta seu universo interior de uma forma singular, dia após dia. Porém, como as séries de vinyasas são bastante intensas, por uma questão de canalização de energia, você, para progredir, precisa aprender a tirar as pedras da mochila para melhorar seu ritmo de caminhada, deixando em segundo plano todas as suas noções mentais cristalizadas como “sou o meu passado e continuo assim sendo”, ou voláteis como “amanhã serei aquilo que tanto quero”, e observa melhor o momento “eu estou”, em sucessiva e ininterrupta transformação. Aprende-se que o tempo real é uma jóia, e é nele que o passado vai sendo substituído gradualmente pela semente do futuro.

Isto vem na medida em que a prática constante vai criando uma familiaridade com a repetição da série. É como aprender a dirigir um veículo: primeiro você reconhece os mecanismos, o assento, os comandos do acelerador e do freio, a tração, alimentação, etc. Depois você fica pensando: para andar, primeiro faço isso, depois isso. Para parar, primeiro aquilo, depois isso e pronto. Assim você aprende a coordenar os elementos e conclui seu serviço. Depois de um certo tempo você já memorizou os comandos e dirige instantaneamente, sem precisar ficar pensando. Daí você está pronto para passar para o nível seguinte e aprender a observar como você está dirigindo. Quando suas ações rotineiras passam a ser como o espelho que você se vê quando acorda todo dia, então começa o yoga de verdade.

Todo dia Eu me dou conta de quem é aquele que está dirigindo. Eu observo, reconheço, aceito e transformo aquele que dirige. Eu vivo o Meu momento, Me harmonizo com cada situação que a vida Me concede, com gratidão pela oportunidade de aprender com as ações. Ainda que eu esteja no comando, Eu reconheço e respeito as leis naturais que são superiores à minha vontade e determinação. Eu focalizo o meu rumo na vida e faço a Minha parte. Eu permaneço presente em qualquer coisa que eu faça. Eu descubro que Eu não tenho tempo, mas o tempo me tem. Eu não sou o tempo, porque o tempo na vida passa e eu permaneço. Até a vida passa com o tempo, mas Eu, como sempre, continuo...

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