Por Mahamuni das (Marcos Elias)
Em nosso último tema falamos sobre a concentração no objeto de meditação, ou seja, concentração no som do mantra. Entendemos que o mantra atua com maior potência na medida da capacidade de concentração e dedicação daquele que o recita.
Então nos deparamos com um problema que é o de fixar a mente no cantar e ouvir o som transcendental. A mente, argumentava Arjuna para Krishna, é muito inquieta e mais difícil de controlar do que o vento, ela tende sempre à dispersar-se sob o efeito de pensamentos e imagens que se sucedem incessantemente. Então, como podemos amenizar a nossa agitação mental para que deixemos de ser arrastados pelo fluxo de nossos pensamentos?
Vemos pela prática que o simples fato de tentar bloquear ou reprimir as imagens mentais é inútil. Os pensamentos surgem espontaneamente, portanto é preciso antes compreender o funcionamento da mente se queremos adquirir poder sobre ela.
Isto a que chamamos mente é, em parte, o reservatório das imagens e experiências que são fornecidas pelos nossos sentidos. Por isso, logicamente o controle da mente começa pelo controle daquilo que vem a ser apreendido pelos nossos sentidos.
Patanjali, em seus Yoga Sutras, enumera a prática do Pratyahara como requisito prévio para a concentração (dharana) e meditação (dhyana). Pratyahara, literalmente, significa controle do alimento, ou seja, ter controle sobre aquilo que penetra os nossos sentidos e que conseqüentemente dará conteúdo à nossa mente. Pratyahara significa assim a arte de libertar a consciência da influência que os objetos externos exercem sobre ela. Isto quer dizer que o aspirante à prática da meditação deve organizar sua vida de modo a ser cuidadoso com aquilo que ele permite que entre em seu campo sensorial.
Um exemplo simples, todos nós já passamos pela experiência de ouvirmos uma música e ela permanecer repetindo-se em nossa mente por dias e mais dias. Então dizemos que a música não sai de nossa cabeça. O mesmo acontece com tudo o mais o que ouvimos, o que vemos, as emoções que vivenciamos etc. Lembre-se, tudo o que experienciamos é registrado pela memória e por isso, mesmo que inconscientemente, influenciará o nosso estado de consciência. Deste modo, de que adianta fazer o esforço durante uma ou duas horas por dia para purificar e aquietar nossas mentes se nas outras vinte e duas horas estamos nos intoxicando com poluições sonoras, absorvendo imagens que agridem o nosso bem estar, cultivando sentimentos que envenenam o coração. Como o meu mestre costuma dizer: sujar a mente é fácil, depois para limpar é que é difícil.
Por isso, é preciso que aprendamos a arte de filtrar, de peneirar aquilo que deixaremos fazer parte de nosso ser, aceitando aquilo que é favorável ao avanço espiritual e rejeitando tudo aquilo que é desfavorável, tudo aquilo que traz agitação desnecessária. Isto não quer dizer ser negligente com os seus deveres, mas significa adquirir uma conduta de buscar sempre aquilo que verdadeiramente é melhor para si.
Conforme dizia Krishna no Bhagavad Gita, devemos ser como tartarugas, sabendo recolher-nos para dentro do casco no momento oportuno. Desta forma podemos manter nossas mentes sempre limpas e habitadas de bons sentimentos, o que nos abrirá as portas para a verdadeira meditação.
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