Por Marcos Elias
Curiosidade é a palavra que usamos para dizer que a alma não se contenta em ficar parada, e que é preciso haver sempre algo maior do que ela mesma para convidá-la a passear.
Quando eu era menino admirava os astronautas, queria ser Neil Armstrong. Na feira de ciências construí meu próprio foguete, lindo, cheio de compartimentos, verdadeira obra prima de engenharia. Ele me levava ao espaço através de minha imaginação, pois mediante as leis da física era impossível nele adentrar, uma vez que era menor do que eu mesmo. Mas se minha mente podia contemplar o infinito sideral, era evidente que aquele foguete não poderia ser maior do que eu mesmo.
Nos livros enciclopédicos, via com grande encanto a fotografia de homens flutuando no espaço, abaixo deles o globo terrestre, nada podia ser mais belo. No espaço tudo parecia mais leve, a vida ainda mais efêmera, fácil de se perder pelos incontáveis pontos cardeais. E imaginava que era apenas por um pequeno impulso, impulso descuidado, que o corpo se poria a flutuar indefinidamente rumo ao desconhecido, e então a angústia de nunca mais poder voltar. Que tristeza inerte deslocar-se eternamente em uma única direção, sem poder mudar o rumo.
Queria ser um astronauta, mas queria estar seguro de que voltaria para minha casa, de que poderia voltar para o colo de minha mãe. Viajar muitas milhas, milhares, milhões de quilômetros luz e poder voltar para o ninho, voltar para o colo da mamãe. Ah, isto sim, não poderia haver felicidade maior.
Fui crescendo e minhas idéias sobre a vida foram sendo aprimoradas, meu vocabulário de experiências se enriqueceu, mas minha alma não deixou de ser aquela mesma alma de menino - graças a Deus -, apesar de que em muitos momentos eu tenha me esquecido disso. Em muitos momentos cresci, mas na verdade me diminuí, uma vez que minha mente perdeu a capacidade de contemplar o infinito.
Somos assim, em muitos momentos nos lançamos em uma única direção inerte, a mente se enrijece, formando suas opiniões acertadas sobre o mundo, antes mesmo de aprender a escutá-lo. Então o milagre do mundo se rebela, não quer ficar engaiolado em nossas grades de conceitos. O mistério se vai, e fica o choro da alma, pedindo que novamente lhe seja dada o direito de voar livremente por todos os caminhos. E assim é, até que, por misericórdia divina, a graça resolve voltar, resolve pousar novamente sobre nós, nos fazendo perceber que se em cada ato não há encanto, algo está errado conosco, que se o mistério se perdeu, então também nós nos perdemos.
A alma não se contenta com apenas um caminho, ela quer conhecer todos eles, ela não se contenta com visões parciais, quer que todos os horizontes se mostrem. Por isso a vida humana se dirige a Deus, numa brincadeira de conhecer Deus - brincadeira de esconde-esconde, movida pelo anseio do encontro, anseio que se renova infinitamente. A alma é como uma criança que sabe que tudo vale à pena, uma vez que a pena é leve e pode flutuar para todos os lados, conforme o desejo do vento, este ser maior que a acolhe e conduz.
Quando encontrei o yoga voltei a ser criança, voltei a ser astronauta, voltei a contemplar livremente os inúmeros caminhos da vida, sem me perder em nenhum deles, - meu Deus, por favor, não me deixe perder-me.
Dizem que yoga significa união, mas união só tem sentido a partir da separação, só queremos unir o que está separado. Por isso, faço do yoga a minha brincadeira de esconde-esconde com Deus, pois é precisamente o esconder-se Dele que me move a percorrer o universo inteiro a Sua procura.
E então, após voar pelo universo todo, o Senhor me ensina isto: que o meu ninho ontológico está em toda parte, e que o colo da mamãe, símbolo da união divina, não está perdido, não pode ser perdido, pois faz parte de mim mesmo. Com esta segurança a vida fica mais mansa, posso me lançar às viagens, com a certeza de que o fio que me liga às origens, cordão umbilical cosmonauta, não será cortado, uma vez que esteja sempre nutrido pelo amor.
Voltei a ser astronauta, e modestamente, agora tento ser pena, entregue ao Ser maior: que como o vento, por favor, Ele me acolha, e então faça de mim o que bem quiser, contanto que me leve sempre a passear.
Acho que este é o objetivo de todo yogue sincero, viajar mil milhas, e estar sempre no mesmo lugar, realizar mil aventuras, e poder sempre voltar ao seu ninho acolhedor, onde a vida é calma e se pode dormir tranqüilo.
No Senhor repousemos, Amém.