Por Inês Lombardi
Música.
É possível definir sua essência? Manifestação sonora do Espírito do Universo?
Sem dúvida, manifestação eterna e privilegiada através da qual os homens dialogam entre si e com o Cosmos. Cada vez, mais pessoas irão experimentar o Mundo como Som, até alcançar aqueles Mundos que simbolizam o epítome do Silêncio, ou seja, o Cosmos, o fundo dos mares, as plantas, o vazio, o nada...o silêncio...a meditação.
O comentário da tradução alemã de um dos livros espiritualistas mais importantes do mundo, o Livro Tibetano dos Mortos, instrui: "O primeiro passo é aprender a ouvir e eliminar o caos interior, relaxando de tal modo o corpo como por ocasião da morte física. Esse passo significa não querer mais interferir, não mudar as coisas...( nen a si mesmo), não discutir, não manifestar opinião alguma, não passar nada do que se ouviu para a linguagem rotineira do dia-a-dia...isso significa descansar tranquilamente perto do grande exército de associações avassaladoras de pensamentos, sentimentos e realidades físicas! A capacidade de ouvir é algo difícil, mesmo que a maioria dos ocidentais se recuse a acreditar nisso."
Se a nossa geração redescobriu a sonoridade do Universo, então necessitamos desenvolver um dispositivo sensorial de audição que seja melhor. Necessitamos reeducá-lo.
Saber ouvir começa com ficar em silêncio. Saber ouvir começa com tranquilidade. Os poetas chegam a falar em "música do silêncio". Martim Buber escreveu: "Onde não há silêncio, a necessidade se manifesta como a voz da arbitrariedade. Ó silêncio protege-me."
Precisamos parar como humanidade e silenciar enquanto é tempo, para que do mais profundo dos nossos corações se faça ouvir a pura canção da Eternidade.
A poluição sonora na qual nossa "civilização" está mergulhada e mais do que caótica: é constrangedora. Nossos canais auditivos estão constantemente expostos ao meio ambiente saturado de ruídos avassaladores.
As pessoas começam a se conscientizar do valor de uma nutrição saudável e equilibrada.
Chegou o momento de nos conscientizarmos também dos efeitos dos sond saudáveis e dos sons prejudiciais, e assumir a responsabilidade pelos sons que deixamos entrar em nosso corpo, e que veiculamos em nosso ambiente.
Sons adequadamente escolhidos ajudam a alcançar um auto grau de harmonia e equilíbrio físico e psíquico.
A conscientização do som como alimento começa com perguntas simples:
- o que são os sons que ouvimos diariamente, no nosso ambiente?
- eles são desejáveis ou não?
Sente-se por 3 minutos e faça uma lista do que você está ouvindo. Ao lado de cada som, ponha um "D"(desejável), ou um "I " (indesejável). O resultado será surpreendente.
O corpo todo reage aos sons. Todas as células do nosso corpo possuem propriedades vibratórias que funcionam como receptores sonoros.
Continuemos com as perguntas:
-será que nosso instrumento ( leia-se: nosso corpo ) está afinado?
-voce já reparou no que a techno music faz com as batidas do seu coração?
-e você já reparou que mastigamos em sincronicidade com a música-ambiente dos restaurantes? E você sabia que a "agradável" muzac é comprovadamente perniciosa?
-é possível escapar dessa invasão a que estamos sumariamente submetidos?
É possível amenizá-la internamente, por exemplo com exercícios higiênicos, relaxamento, meditação, critérios seletivos para escolha de músicas e mesmo de ambientes que frequentamos.
O som é capaz de transpassar barreiras intransponíveis para estímulos visuais, tateis e de outra natureza.
Diz o Mestre Sufi Hazrat Inayat Khan : "O emprego da música para obtenção de algo Espiritual e para cura da Alma, comum nos tempos antigos, não é usado hoje com a mesma frequência. A música transformou-se em passatempo, um meio para nos esquecermos de Deus em lugar de compreendê-Lo."
Vamos agora àquela velha perguntinha que assombra a humanidade : QUEM SOMOS?
Sim, filhos de uma alquimia cósmica. Bonito. Mas então por que, sendo nós seres de tal magnitude, tanta coisa deu errado?
Porque nossa realidade cotidiana contraria o ritmo natural da vida, desorganiza nosso pulso, estamos constantemente voltados para fora, descentrados, em solitária dissonância.
Isso soa apocalíptico? Pena que não seja. Não é uma revelação via profetas, mas simplesmente um fato assustador.
O homem, via de regra, não está dando o devido valor, ou melhor dizendo, o devido respeito ao poder do som.
Vejamos a infância. Qual é o ambiente sonoro de nossas crianças? Ruídos, sons mecânicos e a TV imperam.
Sem nos adentrarmos na sabedoria dos antigos Rishis, vamos observar uma pesquisa recente de cientistas da Harvard e da Universidade da Califórnia, com a música de Mozart. Em um estudo, que já dura 10 anos, realizado com crianças, constatou-se que a música de Mozart ativa todo o córtex cerebral, inclusive áreas envolvidas com a coordenação fina. O cérebro das crianças pode ser influenciado anatomicamente pela música, estruturando as redes neurais. Após 2 anos de trabalho musical refinado, os efeitos serão permanentes e perdurarão pelo resto da vida.
Podemos colocar toda essa conduta sob um outro enfoque: o que teríamos a perder, pelo menos tentando aperfeiçoar nossos hábitos sonoros e musicais? Creio que nada. No mínimo, estaremos ganhando cultura. A conquista do silêncio interior vem por acréscimo.
O primeiro passo para iniciarmos uma saudável dieta musical e sonora, é a respiração.
Inspiração e exalação são harmônicos do Sopro Divino, cujo poder originador expande e contrai de acordo com ciclos fabulosos, que fogem à nossa compreensão. Na física moderna, começam a formular teorias sobre esses ciclos - que, no entanto, foram apreendidos por intuição ou cognição metafísica há milhares de anos, e estão registrados nas Sagradas Escrituras do Oriente.
O que estou procurando deixar claro aqui é que, embora já ajude muito, não basta colocarmos um CD e ouvirmos passivamente, ou simplesmente deixar tocar.
A proposta vai além: somos feitos de diferentes combinações do Som Primordial : o OM. Isso nos dá condições de interagir com ele. Somos irmãos do rugir de um vagalhão, do sopro do vento, do estrondo de rochas caindo, do sussurrar das folhas no bosque. Através da respiração, vamos além do ouvir música. Nós nos transformamos em sinfonia cósmica. E, finalmente, no espaço entre respirações, adentramos pelo Portal do Silêncio - o Eterno, o Imutável.
Exercitemo-nos com uma das mais simples e eficazes práticas de aquisição do Silêncio Interior:a pática So-Ham, o Ajapa-japa . Inalar ouvindo ( e não cantando, é diferente)
a sílaba SO, exalar ouvindo a sílaba HAM. Façamos isso por pelo menos algúns minutos, todos os dias.
Nas palavras de Swami Dayananda," So Ham não é um Mantra. É uma afirmação para ser compreendida. Seu significado é Tat Twan Asi, você é Aquele. Se você é o Senhor, ou se o Senhor é você, deve haver alguma não-diferença."
Em outras palavras, e citando Georg Feurstein, "a respiração é um lembrete constante da Verdade Absoluta, de que somos idênticos à Grande Vida do Cosmos, ao Absoluto, ao Sí Transcendente."
Com nosso Ser interior disponível, vamos gradativamente contribuir para uma mudança no ambiente sonoro.
A consciência musical começa em casa. Desliguemos um pouco (melhor bastante) o rádio e a tv. Quase tudo que sai dos meios de comunicação de massa, traz junto mensagens subliminares que impõem condutas questionáveis.
Vamos reduzi-las tanto quanto possível.
Refinemos nossas escolhas musicais. É interessante observar que a boa música transcende o significado. Alguém é capaz de explicar com palavras o significado da ARTE DA FUGA de Johann Sebastian Bach? Ou um Bhajan do grande mestre Kabir?
Como dizia Alan Watts: "Só a música ruim tem significado."
Períodos de silêncio, durante o dia, podem ser comparados a jejuns salutares, cujo objetivo é eliminar os venenos do sistema. Saimos desses jejuns radiantes.
Nào aceitemos passivamente o baixo nível sonoro e musical veiculados em lugares públicos.
A maioria das pessoas aceita a poluição sonora e os altos decibéis, esquecendo-se que é um direito exigir qualidade e SAÚDE.
Vou finalizar expondo um caso: minha filha e uma amiga, ambas estudantes de música, foram almoçar em um restaurante vegetariano, e ficaram literalmente engasgadas com a péssima música ambiente. Não hesitaram.
Escolheram um CD que traziam na bolsa, e gentilmente pediram para colocá-lo, num volume agradável. Foram atendidas! Era um CD de boa música brasileira, e todos aplaudiram a iniciativa.
A vida é assim: sempre esperam que alguém faça algo para reverter a situação. Pois então façamos!
Respiremos.
So Ham.
ANANDA MANGALAM!!!
VOLTAR AO TOPO