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Curitiba - Paraná

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MÚSICA CLÁSSICA DA ÍNDIA - DAS ORIGENS E FASCÍNIO

Por Inês Lombardi, fundadora do Gandiva Yoga Ashram

Quero compartilhar com vocês, amigos, um pouco de minhas vivências, fascínio e estudos. A parte de pesquisa está fundamentada em escritos de Patanjali, Swami Dayananda, Georg Feurstein, Mircea Eliade, Taimni, Davi Tame, entre outros. Separei em seções : Poder – Mistério – Grandeza – Prática – Pranayama – Sânscrito – Japa e finalmente Música Clássica da Índia, Fascínio.

1 - PODER

Pandit Ravi Shankar, em seu livro “My music, my life” , diz : “Os antigos Mestres não eram apenas cantores famosos ; tratava – se na verdade de yogues em estado de graça, que conheciam todos os segredos do Tantra, do Hatha – Yoga, e das várias formas de energia oculta. Todos eles eram ascetas puros e muitas vezes santos. É essa a maravilhosa tradição de nossa música, e ela inclusive se estende até hoje, embora os prodígios que aconteciam quando esses Mestres faziam música ( chuvas, mudanças da natureza, domesticação de animais, etc...), não mais se realizem. Existem, no entanto, o efeito avassalador e a experiência espiritual que o ouvinte pode sentir.”

Temos aí o poder do Som, isso é fato.
Ravi Shankar, com sua habitual discrição, comenta sobre os prodígios não mais acontecerem, mas sabemos que não é bem assim.

A música não é apenas uma arte abstrata. Ela direciona um Tempo não conceitual dentro da Ordem Cósmica.
Música é energia atuando constantemente dentro de nós.

Música e espiritualidade estão indissoluvelmente ligadas na Índia, a tal ponto que a música clássica indiana dá grande importância à estatura espiritual do músico. Os professores são também gurus. O ensino é musical e espiritual. É preciso ter um sólido conhecimento dos antigos textos religiosos.

A primazia da música indiana cabe à voz – meio mais potente de expressão das forças cósmicas. E está particularmente associada ao OM – a Voz de Deus.

COMECEMOS PORTANTO PELO OM ( BRAHMAN ).

2 – MISTÉRIOS

Citemos os Upanishads .
Upanishads significa “sentar aos pés do Mestre”. São exposições metafísicas sobre postulados implícitos nos Vedas, sendo a última fase de suas revelações.
Existem mais de 200 Upanishads, sendo que 13 deles são a base sobre a qual se levantou o edifício do Vedanta.
Podemos dizer que 2 livros básicos são o Katha – Upanishad, em verso, e o Mandukia, em prosa clássica.

No KATHA – UPANISHAD, encontramos uma belíssima citação ao OM :
“Desejoso de alcançar o céu, o filho de Vajakrava deu tudo quanto possuía. Seu filho Nachiketas, apreensivo quanto ao futuro bem – estar de seu pai, perguntou por 3 vezes : “- A quem me darás?”
E o pai lhe respondeu, furioso : “-Eu te darei à Morte.”
Então acontece um intenso diálogo entre Yama, deus da Morte, dotado de conhecimento Universal, e Nachiketas, que lhe pede conhecimento sem cessar.
Num dado momento Nachiketas pede:
“- Dá – me então agora, a conhecer, o ente que sabes ser diferente da virtude e do vício, do conjunto das causas e efeitos, diferente do passado, presente e futuro.”

( Ele está se referindo à ATMAN – Alma individual – de natureza idêntica à Alma Suprema ou Universal.
Também Platão, no Ocidente, disse que a Alma não pode ter começo nem fim.)

Ao que Yama responde :
“_ A palavra a que se referem todos os Vedas, a palavra de todos os Atos de penitência, que todos os Brâmanes estudiosos desejam compreender, eu te direi, é OM.”

O Om é contínuo como o óleo que flui suavemente, como o longo ressoar de um gongo. É som impronunciável, sempre novo, sempre inspirador. Quem o conhece conhece os Vedas, ou toda Verdade que há para ser conhecida.
O OM AFINA O INDIVÍDUO PELO PRÓPRIO TOM CELESTIAL.

Vivenciando OM, nos transformamos em sujeito e objeto do conhecimento.
Pressupõe – se uma analogia entre a palavra humana e a divina, pois só realizamos o que já existe dentro de nós. A magia se apóia nessa analogia, quando se utiliza de fórmulas vocais. O ritual que se acompanha de hinos, cantos e orações, origina – se da consciência sobre a eficácia do poder sobrenatural da palavra.

A sílaba mística OM é o nome da divindade Suprema que ressoa eternamente no Infinito, análoga ao Iavé dos hebreus. Na Índia, somente os santos conheciam a exata pronúncia da sílaba. Segundo a Teosofia Bramânica, as 3 letras designam as 3 divindades da Trimurti, as 3 hipostases do Princípio Eterno e Absoluto.

No Mandukia – Upanishad lemos :
“A sílaba OM, que é o imperecível Brahman, é o Universo. O que quer que tenha existido, o que quer que exista, o que quer que venha a existir, é OM. E o que quer que transcenda o passado, o presente e o futuro, também é OM. “
A extrema brevidade desse Upanishad de apenas 12 estrofes, é amplamente compensada pela importância de suas revelações.

Os Vedas descrevem o OM como o Poder vibratório com o qual Deus criou e sustenta todo o Universo.
Tudo o que existe é fundamentalmente de natureza vibratória, são diferentes freqüências do OM.
Os antigos redatores dos Vedas deram um passo à frente ao considerar o Som Cósmico não como efeito, mas como CAUSA de todas as atividades e forças vibratórias.
Não só a antiga Índia conhecia o Poder do Som.
Conta – se que todos os anos, na antiguidade chinesa, no segundo mês, poderia encontrar – se o imperador Shi Shun jornadeando para o Leste, a fim de passar revista ao seu reino e certificar – se de que tudo estava em ordem no imenso território. Entretanto não o fazia verificando os livros de contabilidade das diferentes regiões, nem observando o modo de vida da população, nem entrevistando os funcionários regionais em posição de mando.
De acordo com Shu King, um antigo texto chinês, o imperador Shi Shun percorria o território experimentando as alturas exatas das 5 notas da antiga escala musical chinesa.
Mandava vir à sua presença, os 8 tipos de instrumentos musicais conhecidos na China e ordenava que fossem tocados por músicos. Em seguida ouvia as canções populares locais e as árias cantadas na própria corte, verificando se toda música estava em plena correspondência com os 5 tons.
Se o imperador descobrisse que os instrumentos dos diferentes territórios estavam afinados de diferentes maneiras, saberia que os territórios logo começariam a diferir – se uns dos outros.

Platão e Aristóteles discutem os efeitos morais da música em várias de suas principais obras.
Na Bíblia existem relatos impressionantes, como a destruição das muralhas de Jericó.

Mas voltemos à Índia.

3 – GRANDEZA

Ja sabiam os antigos hindus, que a vibração fundamental se diferencia em certo número de vibrações superfísicas melhor definidas, e que tais diferentes tons cósmicos estavam presentes em diferentes combinações por todo Universo.
Mais uma vez, foram além : NÃO SÓ ESTAVAM, MAS ERAM AS PRÓPRIAS SUBSTÂNCIAS E FORMAS.

Hoje, as ciências físicas estão chegando ao ponto de partida original.
Estão reconhecendo, atônitos, a Teoria da Relatividade nos Sutras de Patanjali.
Existe uma publicação recente intitulada “O Universo Elegante”, de Brian Greene. Na contracapa lemos: “No interior mais fundo da matéria vibram cordas, como as de um instrumento musical. Tudo o que existe e acontece no Mundo, no Universo, surge das vibrações dessas entidades, centenas de bilhões e bilhões de vezes menor que o núcleo de um átomo. A Teoria das Cordas compatibiliza a mecânica quântica e a relatividade geral em dimensões ocultas.”

Portanto, são os Tons Cósmicos, como diferenciações do OM, as forças mais poderosas do Universo, por Serem eles o Universo, a Fonte da Criação.
Daí, amigos, o vasto poder de todo som audível terreno, pois ele é um reflexo, no mundo da matéria, dos Tons Cósmicos. Ele contém em si algo da enorme força Criativa ( Brahma), Preservativa ( Vishnu) e Transformadora ( Shiva) dos ditos Tons Cósmicos.

O OM parece uma única nota, mas na verdade são 3 sons e meio, que resultam de 3 ações separadas, sendo o primeiro som de Om o mundo manifesto, o segundo é o mundo imanifesto, o terceiro é o som do mundo não manifesto, e o meio som de Om é o Silêncio, o objetivo final, a meta incomparável.
Na verdade, nem é necessária a sua pronúncia: nós o imaginamos com o ouvido interior, e em combinação com certas disciplinas mentais e espirituais, afinamos a Alma diretamente pelo SOM SEM SOM.
Segundo os Vedas, descendo da freqüência dos Reinos do puro Espírito para a arena do tempo e do espaço, o OM molda e organiza a matéria - energia primordial – revelando a matéria física.

OM É O MURMÚRIO DO MOTOR CÓSMICO, TRANSPIRANDO CONTINUAMENTE DOS POROS DO ESPAÇO. ESSE SOM CÓSMICO É A CANÇÃO DE NINAR DA CRIAÇÃO. – essa é a belíssima e poética definição de Paramahansa Yogananda.

Os sons dos sinos das igrejas são uma tentativa simbólica de reproduzir o grande som cósmico de OM. Daí a emoção ao ouvi – lo: nosso sangue se agita, a pele arrepia – é a memória do OM oculto no nosso interior.

4 – PRÁTICA

Vyasa, antigo comentarista dos Sutras de Patanjali, sabiamente nos adverte que não se trata de entrar em especulações a respeito dessa sílaba mística.
Ele associa o conhecimento das ciências da liberação a uma técnica mística, pois trata – se pura e simplesmente de repetir a sílaba OM com concentração, respeito e devoção.
É a essência dos Mantras, representando o Senhor, o Mundo e o Indivíduo, resumindo – se portanto todo assunto do Vedanta em OM. De acordo com o raciocínio dos Upanishads, todas formas são nomes, todos os nomes são sons. Os vários sons e todas suas possíveis combinações criam todos os nomes ou palavras possíveis. Palavras são denominações de objetos. OM inclui, portanto, todos os sons, por isso todas as palavras, e portanto todos os objetos. Todos os objetos constituem a Criação. A Criação é o corpo do Criador. OM é o Criador e a Criação. O indivíduo está ai incluído.

Cada Mestre tem sua técnica específica de OM.
Cabe a cada um achar sua linha e ter a disciplina e devoção que sustentem o Caminho.
No entanto, todas as escolas são unânimes em afirmar que OM entoado internamente é muito mais poderoso e eficaz .

No Maitri – Upanishad, um Upanishad tardio, vê –se o valor dado à meditação auditiva ( shravana), onde mediante a meditação em OM vê –se Brahman e obtém –se a imortalidade.
O cap. VI indica um método de experiência mística auditiva:
“Quando se tapam os ouvidos com a ajuda dos polegares, ouve –se o som do espaço que está no interior do coração, e sua manifestação reveste – se de 7 formas: o som de um rio, de um sino, de uma taça de cobre, de uma roda de carro, do coaxar de uma rã, da chuva e da palavra em um lugar coberto. Depois de ter ultrapassado esses sons de características distintas, ele vai se perder em Brahman não manifestado, no som supremo. É por isso que o Yogin une dessa maneira o Prana, a sílaba OM e este Universo com todas as suas inumeráveis formas, razão pela qual esse processo chama –se YOGA.
A UNIDADE DA RESPIRAÇÃO, DA CONSCIÊNCIA E DOS SENTIDOS, SEGUIDA PELA EXTINÇÃO DE TODOS OS CONCEITOS : ISSO É YOGA.”

Posso imaginar que alguns de voces devem estar pensando : “...mas esse artigo não era sobre Música Clássica da Índia?”
Era sim, e continua sendo.

Prossigamos.

Num dado momento, o chela , ou discípulo, se dá conta de algo muito claro na jornada moral e ética do aprendizado, que é:

5 – PRANAYAMA

Respiração é ritmo, kumbhaka é silêncio.
Não dá para discutir. É muito claro.
A porta de entrada é o chakra Vishuddha, a chave é o Pranayama, a ordem na energia.
As posturas praticadas nas diversas escolas não diferem muito : Sukhasana, Padmasana, Siddhasana, Vajroliasana.
Como senta o músico indiano?
Você já deve ter visto um. É assim mesmo.
Observe sua respiração, e procure observar sua conduta em Yamas e Niyamas.
Música é ordem no caos.

6 – SÂNSCRITO

Algumas palavras sobre o Sânscrito.
Vou contar uma história:

Há muito tempo, na mais absoluta imobilidade das grutas dos Himalaias, cobertas de neve, os Rishis, antigos sábios em profunda meditação, retiravam suas mentes do ruído externo e focavam nos sons interiores. Por séculos de prática assídua, gerações de Mestres Tântricos foram capazes de detectar as freqüências específicas emanando de cada um dos subcentros dos Chakras, e verbalizaram – nas em voz alta – criando portanto uma linguagem que é a RESSONÂNCIA DO NÍVEL MAIS PROFUNDO DA VIDA : o Sânscrito

Os 6 Chakras mais baixos tem um total de 50 pétalas, ou irradiações ( 4 + 6 + 10 + 12 + 16 + 2 = 50 ) , mas somente 49 sons, uma vez que uma pétala do Ajna Chakra, o chakra frontal, é SEM SOM.

Estes 49 sons – cadências vibracionais do núcleo do nosso Ser – tornaram – se as 49 letras do alfabeto Sânscrito.
Portanto, a imagem mais antiga do mundo, é também a canção eterna da humanidade.

O Sânscrito é misticamente preciso. É terminantemente proibido alterá – lo.
O som original de qualquer objeto, fenômeno ou condição, é entendido como seu Bija – Mantra. Conhecendo – se esse som original, pode – se alcançar um estado de percepção absoluta da coisa em si.
Por milhares de anos, a antiga tradição criou os sons Bija de elementos nobres como Terra ( LAM ), água ( VAM ), fogo ( RAM), ar ( YAM), Akasha ( HAM).
A Shakti, ou Força potente do Ser Divino, é transmitida a quem está cantando o Mantra, afinando – nos pelo padrão interior de cada plano do Ser de Deus.
A primeira letra de cada bija denota – lhe a freqüência.
A vogal central de cada uma delas é A – a ação ou Alfa, ou o princípio do Pai ; o M é o som da Mãe. O Pai cria, a mãe sela a criação. Toda Trindade tem uma semente.

O Sânscrito é, portanto, a Geometria da Divindade.

7 – JAPA

Abordaremos de leve a prática Japa, uma disciplina basicamente simples, mas bastante eficaz e relevante.
Segundo os escritos simbólicos do Upanishad Aitareya, a Criação envolveu a formação de uma boca Cósmica.
“Dessa boca procedeu a fala; da fala, Agni, o Fogo.”
No mundo menor do tempo e do espaço, diz – se que a mesma força ou fogo criativo de Agni proveio da garganta do homem mortal.

Japa é a repetição de uma palavra ou frase durante a meditação ( ou também durante a prática de pranayama).
A sílaba JÁ significa aquilo que põe fim ao ciclo de nascimentos e mortes.
A sílaba PA significa aquilo que remove ou destrói todas as impurezas e obstruções.
Ou seja, destruindo todas as espécies de obstruções ao conhecimento, Japa abre caminho para a Liberação. Ele prepara a Mente para apreciar de que forma sou idêntico ao Criador.

Executando a Japa com um bija – mantra, criamos uma ressonância harmônica com o ser ou elemento cujo som original é o próprio bija – mantra.

Para a chamada incessante da energia divina, Japa é um método privilegiado.
A invocação dos mil nomes de Deus, fazendo – se preceder cada nome do Mantra OM e do vocábulo NAMAH ( reverência, saudação...também NEM EU NEM MEU) constitui um milhar de oblações de si próprio, ao alcance de todos, sendo essa sua maior eficácia : pode ser praticado por todos, sempre, em qualquer lugar.
No 10 capítulo do Bhagavad – Gita, o Senhor Krishna diz : Ëxistem várias formas de rituais e muitos meios através dos quais sou invocado, mas dentre eles eu sou Japa.”

E finalmente, através da prática disciplinada de Japa, temos a oportunidade de eliminar o pensar encadeado e nos apoderamos do intervalo entre pensamentos : o Silêncio.
Nas palavras de Swami Dayananda, cada cântico é uma unidade completa em si mesma, sem conexão com a segunda unidade – pensamento, já que ambas são idênticas. Dessa forma, entre 2 cânticos, existe um espaço de tempo sem pensamentos. É isto Paz ou Silêncio.
Porque a mente é inquieta nós pensamos na Paz ou Silêncio como algo a ser conquistado. Mas será assim? Qual será o atributo natural da mente?
Ainda seguindo o raciocínio cristalino de Dayananda, para produzir agitação e inquietude, temos que nos esforçar bastante. Temos que criar uma edificação, sem a qual a inquietude não será possível. É um assombro: perde – se o controle sobre ela. Qualquer coisa aciona o processo e ficamos à mercê: alguém que olha para você e franze as sombrancelhas; o telefone que toca, você atende e dá ocupado; os cachorros na rua latindo ao mesmo tempo...qualquer evento dá início ao processo e sua mente fica ocupada o dia inteiro.
E para a Paz...o que é preciso fazer?

O pensamento surge e cessa.
Antes do surgimento do pensamento, eu sou Silêncio.
Após o desaparecimento do pensamento, eu sou Silêncio.
Japa nos traz esta vivência.
A ação do Japa modifica o espaço interior do indivíduo, ativa energias latentes e, desativando conteúdos mentais estagnados, desperta a Intuição. Enfim realizo que SOU AQUILO QUE BUSCO.

Japa – Mantra deve ser uma disciplina diária, algo com a qual estou em Paz.
Usamos o Japa – Mala, cordão de repetição com 108 contas ( mais o Meru).
Completando o ciclo, a repetição continua espontaneamente na respiração.

A prática de Mantras é um assunto de abrangência razoavelmente ampla, mas que tem apenas um objetivo: o desenvolvimento de nossa natureza espiritual, e não a obtenção de objetivos mundanos, como muitas pessoas pensam.
Quanto mais elevado e espiritual o objetivo de um mantra, mais simples é a técnica e menor o perigo ao usá-lo com inteligência e devoção.
Trata-se de uma combinação particular de letras, que tem oculto dentro dela um misterioso poder de gerar certos resultados ao ser usado de uma determinada maneira.
Num sentido mais amplo, Mantra é um texto sagrado. De fato, todo hinário Védico é chamado de Mantras.

Vimos que todo Universo manifestado está fundamentado na vibração e é por isto que é possível produzir todo tipo de mudanças na matéria e na consciência por intermédio do Som.
Isto parecia uma doutrina fantástica aos olhos dos ocidentais apenas meio século atrás. Mas o “progresso das ciências” corroboraram esta doutrina de uma maneira bastante inesperada. Os cientistas descobriram que aquilo que parecia aos sentidos um Universo tangível era, em sua maior parte, espaço vazio.
Calculou-se que se todos os átomos presentes no corpo de um homem fossem juntados e todos os espaços vazios nestes átomos fossem eliminados, obteríamos um pontinho tão pequeno que seria necessário uma lente de aumento para poder vê-lo. E mesmo este pontinho de matéria pode estar composto tão somente de energia.
Mais uma vez, os antigos Rishis foram mais longe: descobriram que os elementos intangíveis do Universo, como pensamentos e emoções, também tem uma base material. Mas a matéria mais sutil através da qual operam estes elementos também é, no fundo, apenas um conjunto de vibrações e um arranjo de diferentes tipos de energia. Os mundos mais sutis estão igualmente fundamentados em vibrações e energias de vários tipos. Também nossos pensamentos.
Todas estas vibrações estão conectadas umas com as outras, e podem ser rastreadas desde um estado até outro mais sutil, até que terminam em uma vibração primária, fundamental e todo abarcante, a partir da qual todas as vibrações presentes no Universo manifestado podem ser consideradas como sendo derivadas. Tal vibração encontra – se na base da forma, e é necessária para a manifestação da consciência.
( Se você neste ponto pensou no OM, acertou em cheio.)

Portanto, completamos aqui o círculo voltando ao OM, sem nunca dele ter saído.
E chegamos, enfim, a uma das manifestações sonoras mais refinadas da humanidade:

8 – MÚSICA CLÁSSICA DA ÍNDIA

A música indiana é eminentemente espiritual mas profundamente humana e faz parte da vida social, religiosa e cultural do povo indiano – daí sua sobrevivência através dos milênios. Traz sempre como característica intrínseca a eternidade: poderia durar para sempre, sem cansar, pois ninguém fica saturado da vida.

Ela localiza – se em outra dimensão : muitas vezes uma única nota é responsável por toda uma atmosfera. Ela sempre fala do um, no qual a consciência Suprema, a Alma e o Mundo fluem em conjunto. Não há outro.

As primeiras evidências da música clássica surgiram na época Védica em formas de Sangam, que era usado para cantar os hinos védicos, demonstrando mais uma vez suas raízes nos Mantras. A música é vital na concepção cósmica hindu.
Desde tempos imemoriais, na Índia, determinadas seqüências de sons correspondem a determinados temas pictóricos.
O Sânscrito, por sua vez, faz diferença entre o som audível(AHATA),e o Som Cósmico(ANAHATA). AHATA pode ser ouvido por todos. ANAHATA não – a não ser pelo yogin avançado, sentado em profunda contemplação. Portanto a música, sendo som audível, é manifestação de Anahata – OM.

Como já foi dito, a primazia da música indiana cabe à voz, seja ela de origem islâmica ou hindu, a recitação cantada dos livros sagrados, os Vedas ou o Corão. Durante milênios não houve nenhuma diferença entre cantar e recitar.

O Samaveda é o mais antigo livro sobre a relação música – homem – cosmos.

Os Vedas eram, e ainda são, cantados com 3 sons. ( Isso também corresponde à recitação dos textos Homéricos). Na linguagem musical indiana, os sons mencionados correspondem ao Komal Ni, o Sa e o Komal Re , ou seja, Si bemol, Dó e Ré bemol.

No decorrer do seu desenvolvimento, a música indiana permaneceu monofônica. Isso significa que tudo se relaciona sempre com um som básico que nunca é mudado : não existe acompanhamento com acordes harmônicos ou mudanças de sons básicos. Ao contrário: o som básico e seus primeiros harmônicos superiores ( oitava e quinta) permanecem como bordão com um instrumento que simboliza justamente o Eterno – o Tanpura.

Voltando à voz: o poder da palavra pode interferir no curso do destino humano e na Ordem do Universo. E de todas as formas de sons audíveis, as criadas pelo homem eram tidas como as mais poderosas, pois o uso da voz e as execuções com instrumentos musicais constituem uma liberação de energia muito específica e inteligentemente controlada de vibrações.

Enquanto a música do Norte da Índia mesclou-se devido a invasão maometana, com maneiras de tocar e concepções musicais persas e árabes, a música do sul da Índia permaneceu fortemente hindu, ou seja, exclusivamente uma forma de fervor religioso.
Enquanto no sul se tocava e cantava apenas para Deus, nas aldeias islâmicas falava-se sobre um poder sobrenatural que um cantor ou instrumentista podia evocar através da música. De lá nos chegam noticias quase inacreditáveis que aconteceram através da influência da música.

A arte não existia até Shiva dançar a criação. A música estava adormecida dentro de um ritmo imóvel, profundo como a água, negro como a escuridão, leve como o ar.
Então Shiva vibrou o seu tambor.
Tudo se pôs a tremer de desejo de existir. Shiva dançou e o Universo entrou em erupção. Os 6 grandes Ragas, os pilares de toda música, nasceram das expressões do rosto de Shiva. E através de suas vibrações o Universo adquiriu existência.
Cada um dos 6 Ragas recebeu 6 esposas, 6 Raginis para ensina-los a amar.

Os Ragas são a arquitetura da emoção.
São um modo composto de um certo numero de degraus que – e essa é uma das maiores diferenças da escala ocidental – de acordo com o motivo sobe de uma maneira ( Aroha – escala ascendente) e desce de outra ( Avaroha – escala descendente).
Os instrumentos de corda representam Brahma; os de sopro, Vishnu; e os de percussão Shiva, é claro.

Cada Raga está relacionado com uma estação específica, uma hora do dia, uma emoção: alegria, assombro, heroísmo, raiva, dor, piedade, amor, medo, tranqüilidade.

Dizem os indianos que se você decide ser músico, faz um pacto com o próprio Shiva, e cada nota que você toca envia nova vida para o Universo. Nunca poderá tentar reavê-la.
E para onde vai toda essa música?
Volta para o Som que é tão abrangente que é Silêncio, o Som que é o segredo do Gandharva Veda.
Ouvindo-se esse SOM SEM SOM, alcança-se a liberação.

Os sons especiais dos Ragas tem o poder de abrir os centros interiores.
No ritual diário do músico clássico indiano constam Mantras, Kirtans e Bhajans.
Kirtana é uma forma extroversora, que consiste em cantar hinos, poemas ou nomes divinos com ritmo, música e freqüentemente dança.
Dentro da via do Bhakti – Yoga, o Narada – Bhakti – Sutra reza: “Apegar-se à glorificação das qualidades divinas pelo shravana(escuta), e pelo kirtana”
A escuta envolve o estudo de textos sagrados e a audição de recitações que se referem ao gesto sagrado nos atos executados pelas encarnações divinas.
ESCUTAR É BEBER O NÉCTAR DAS ATIVIDADES LÚDICAS DO SENHOR.

O Bhajan é uma forma estritamente devocional e canta para glorificar o amor divino.
É de uma beleza transcedental, extremamente refinada. É muito lírica e consta que foi a princesa Mirabai quem começou essa nova forma de música, no Templo de Akbar .
A maior parte dos grandes poetas compositores, como o grande Kabir,
Shankara e a própria Mirabai eram Bhaktas.

Para as pessoas que se dedicam ao Yoga e à Meditação, à mística Hindu ou Islâmica, que estudam o sufismo ou que, por outros caminhos, procuram pouco a pouco tornar o seu interior mais consciente, a música clássica indiana, tanto a Karnática do sul, quanto a Hindustani do norte, pode ser um veículo fantástico para a viagem ao supra-consciente, e a grande aventura de abrir as cortinas.
Essas poderosas vibrações são transmitidas também ao ouvinte, quando este compreende como ouvir corretamente.
A arte de ouvir corretamente é explicada por Pandit Patekar da seguinte maneira:

“A ALEGRIA ESTÉTICA MAIS ELEVADA É ALCANÇADA QUANDO O ARTISTA E A AUDIÊNCIA SE ENCONTRAM NUMA RELAÇÃO HARMÔNICA DE TROCA”

1- Liberte seus pensamentos temporariamente da forma costumeira de pensar e concentre-se nos aspectos espirituais mais elevados da vida. Com esse tipo de concentração, consegue-se ouvir o que a música tem de melhor.

2- Em suas reflexões coloque o Universo em primeiro plano, e tente deixar de lado ou esqueça o hábito de considerar aspectos parciais.

3 – Mergulhe num estado de espírito meditativo e contemplativo. O Alap de um Raga é o mais apropriado para isso. O Alap é a introdução calma e meditativa da idéia musical.

4 – Estabeleça uma ligação com os aspectos sobrenaturais da realidade. Isso pode ser alcançado tanto através dos sons do Raga, como por seu ritmo.

5 – Coloque de lado todos os preconceitos íntimos.

6 – Procure abrir caminho para o interior do músico e da música.

7 – Permaneça quieto e espiritualizado interior e exteriormente.

Terminado o concerto, desfrute o silêncio.
Desde Tempos imemoriais, grupos de saddhus vagueiam pelas terras da Índia cantando bhajans e mantras, horas e horas a fio, todos os dias do ano, com o duplo propósito de elevar a consciência e manter o equilíbrio da sociedade.
Durante milhares de anos, nunca houve um instante sequer de tempo em que muitos milhares de homens santos não entoassem versos santos no subcontinente da Índia, a fim de que o mal ou o desastre não prevalecessem sobre a Terra.

LOKAH SAMASTAH SUKHINO BHAVANTU

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