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Curitiba - Paraná

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Breve introdução ao sistema Sankhya

Por Ricardo Prates

Entre todas as variantes e diferentes vertentes do pensamento indiano, os assim chamados de hinduístas, dividem seu conhecimento mais antigo e ortodoxo tradicionalmente em seis principais linhas, que são: purvá-mímámsá, uttará-mímámsá, vaiseshika, nyaya, sámkhya e yoga. Porém esses seis sistemas de pensamento não divergem totalmente entre si, possuem congruências que nos dão certeza de sua validade, pois apesar de suas diferenças, os conceitos basais são bastante semelhantes. Alguns desses pontos são o conceito de átman, karma, e moksha. Segundo o professor Roberto Martins em sua apostila utilizada no curso de Yoga das Faculdades de Ciências Bio-Psiquicas (atual FIES), tais conceitos explica-se da seguinte forma:

Átman é o eu, ou espírito superior que em si mesmo não está sujeito a alterações, permanecendo sempre idêntico e puro. O átman está circundado por um espírito empírico impuro que tem desejos e sofre em conseqüência de suas ações (karma). O eu empírico fica por esse motivo sujeito a uma série de renascimentos até que seja capaz de alcançar a libertação (moksha), em que o elo entre o átman e o mundo dos fenômenos é rompido.

O samkhya e o yoga são linhas de pensamento bastante semelhantes sendo que muitas vezes são tratadas como dois aspectos diferentes e complementares entre sí, recebendo o nome de sámkhya yoga. No século XV, no vedántasára, e novamente no século XVI, nos escritos de Vijánabhiksu, as duas linhas são apresentadas simultaneamente conforme a teoria que revela a verdade única sob dois pontos de vista. Na verdade os protagonistas das duas escolas colaboraram na Índia durante séculos emprestando-se mutuamente conceitos importantes com o propósito de expor o caminho que leva a seu objetivo comum: o moksha.

A palavra samkhya, recebe interpretações variadas. Algumas vezes afirma-se quem vem do nome do fundador dessa filosofia, que seria chamado Sankha. Outra possibilidade é a de que o nome desses sitema é derivado de samkhyá que pode ser traduzido como “enumeração”. Nesse caso a característica principal do sistema seria a classificação e enumeração de seus princípios, como por exemplo os 25 tattva e os três guna. No entanto a palavra sámkhya pode ser traduzida como “desmembramento” ou “discriminação” e indicar assim a característica básica do sámkhya de diferenciar ou proporcionar uma discriminação intelectual entre purusa (o espírito) e prakrti (matéria).

Segundo o pensamento sámkhya, toda a manifestação cósmica assenta-se numa dualidade fundamental do purusha, o princípio transcendente masculino e prakrti a substância primordial concebida como feminina. Apesar disso, o sámkhya não é uma filosofia dualista pois não se atem somente a dualidade purusha – prakrti, pois não afirma que prakrti seja um princípio independente de purusa mas sim que toda sua atividade refere-se sempre a purusha, tanto na emanação quanto na dissolução do universo. E é dessa ação conjunta e totalmente interdependente que se manifesta a consciência do supremo, do absoluto, no indivíduo. Para Mircea Eliade (Yoga, Imortalidade e Liberdade. São Paulo, Palas Atenas, 1996):

... a parte mais sutil, a mais transparente da vida mental, isto é, a inteligência (buddhi) em sua modalidade de pura “luminosidade” (sattva), tem a qualidade específica de refletir o espírito. A compreensão do mundo exterior não é possível senão graças a esse reflexo do purusa na inteligência – reflexo que não alerta o si, nem o faz perder suas características ontológicas (impassibilidade, eternidade, etc).

Portanto somente o indivíduo posicionado no aspecto de pura luminosidade poderá ter a possibilidade de “refletir” o espírito, ou seja enquanto estamos posicionados nos aspectos mais grosseiros da matéria, estamos posicionados no eu, somente assim teríamos a noção de individualidade, noção do eu que sofre, possui, deseja. Posicionados nesse aspecto, mantemos essa sensação ilusória de pseudo-individualide-egóica, que nos impede de alcançarmos a libertação (moksa) da matéria (prakrti), devido as amarras das incessáveis seqüências de causa-efeito (karma). Como diz o sábio Vyasa, citado por Eliade,

“o espírito se reflete na inteligência (buddhi) mas ele não é nem semelhante nem diferente dela. Não é semelhante a inteligência porque esta é modificada pelo conhecimento, sempre mutável dos objetos, ao passo que o purusa dispõe ininterrupto e de certa forma ele é conhecimento”.

O sámkhya nos diz, que somente à partir da veemente destituição de atributos do espírito, da eliminação até mesmo de qualquer centelha de esperança em encontrar a felicidade é que o sábio consegue adquirir o real conhecimento e obtém a possibilidade de alcançar a “revelação”.

Essa liberdade só acontece quando conseguimos nos livrar de todos os aspectos de prakrti que se manifesta no mundo físico como que numa “densificação”, até atingir o estado concreto de matéria. A densificação ou “materialização” acontece através das manifestações dos atributos de prakrti – os tattvas. Para Eliade dentro do samkhya o profundo conhecimento é de vital importância para todo o processo de desenvolvimento espiritual:

O estudo dos tattva é essencial... pois essas mesmas etapas de manifestação cósmica tem de ser revividas na mesma ordem, mas em sentido inverso pelo yogin. Esse tem por assim dizer, de refazer o caminho da cadeia de criação, partindo dos tattvas inferiores e reconstituindo um a um ou grupo a grupo os princípios até a sua absorção completa no não-manifestado. Nesse sentido os tattvas são para ele uma gradução nos níveis da prática de yoga.

A seqüência dessa densificação ou manifestação é como a seguir:

  • Mahat - é o grande princípio e nenhum outro é maior se estendendo por toda a criação. É também chamado de Buddhi: inteligência pura supra-individual e supra-racional – é base da inteligência de todos os seres. No ser individual manifesta-se somente como discernimento, como aquilo que reconhece, determina.
  • Partindo do conceito de buddhi, prakrti manisfa-se então como o akamkara ou a manifestação do eu egóico que tem por princípio provocar a individualização do intelecto.

A partir dessa diferenciação entre o sujeito e o objeto, acontece uma bifurcação dos processos que formam duas correntes: uma do universo objetivo e outra do universo subjetivo.

Essa construção é coordenada por três princípios, sattva, rajas e tamas, ou a grosso modo “luminosidade”, “atividade” e “inércia”.

De sattva emanam as onze faculdades que forma o mundo subjetivo (indriya); de tamas emanam as cinco qualidade sensíveis ou tanmatras de onde advém cinco elementos grosseiros que formam o mundo objetivo. Nos dois casos rajas somente entra em ação como força ativadora dos outros dois princípios.

As onze faculdades individuais (indriyas) são:

  • Cinco faculdades cognitivas (jnanendryas) – audição (srota), tato (sparsana), visão (caksus), paladar (rasana), olfato (ghrána), mente (manas).
  • Cinco faculdades de ação (karmendryias) – voz (vak), mãos (páni), pés (páda), órgãos de excreção (páyu), órgão de reprodução (upastha).
  • Manas ou o sentido interior - não age sozinho, precisa da ação do "eu", o ahamkára, do intelecto ou buddhi.

A partir do aspecto tamas de ahamkára, brotam as cinco delimitações da substância sutil ou tanmátras: o som (sabda), toque (sparsa), cor ou forma (rupa), sabor (rasa) e odor (gandha). Dos cinco tanmátras derivam os cinco elementos grosseiros ou mahábhuta: éter (akasha), ar (vayu), fogo ou luz (tejas), água (ápah), terra (prthivi). São esses cinco últimos elementos, combinados nas mais diferentes formas os responsáveis pelo universo material.

Prakrti expande-se, contrai-se, transmuta-se e transforma-se e de toda essa dança cósmica o universo é criado frente a purusa que participa com ativador dessas transformações mas que se posiciona nesse revolver todo como uma espécie de espectador e nesse momento identifica-se com prakrti novamente e volta a envolver-se com ela em sua forma material.

... o purusa à maneira de um espectador inteiramente “cativado” por um espetáculo, torna-se prisioneiro pelo menos aparentemente do mundo fenomenal. Transforma-se assim no jivatman “a alma viva” ou o eu individual, a consciência que, estando associada às funções psíquicas e corporais, está empenhada na experiência e se caracteriza duplamente como “aquele que age” (katr) e aquele que percebe a experiência (bhoktr). (Michael Tara, O Ioga, Ed. Presença, Lisboa)

Parece ser como se prakrti e purusa brincassem um jogo onde prakrti exibe todas as suas habilidades a purusa em todos os momentos da criação e purusa se permitisse cativar. Por outro lado, purusa na forma de jivatman busca a libertação (moksa) que ocorre imediatamente quando a inteligência (budhi), conduz o homem ao limiar dos despertar. Quando isso ocorre, os outros elementos psico-mentais produzidos por prakrti se desprendem de purusa na forma de jivatman e se reabsorvem em prakti

“não há nada mais sensível do que prakrti, e desde que ela diz a seu respeito: ‘fui reconhecida’, não se mostra mais aos olhares do espírito” (Sankhya Káriká, 61 – citado por Mircea Eliade).

Quando o conhecimento perfeito e transcendental é alcançado, o sábio ainda mantêm-se no corpo como que se ficasse “queimando” os últimos resíduos do karma para que no momento da morte possa libertar-se de toda a influência da matéria para não voltar mais.

Então.

Partindo de um profundo interesse e busca pela libertação das mazelas do mundo material, mesmo tendo essa busca suas bases fundamentadas no conhecimento intelectual, alcança-se a liberdade real. Da mera especulação mental do novato caminhante, brota o interesse profundo que dá lugar a busca intelectual verdadeira. Porém como usar para busca espiritual, ou as mesmas ferramentas que prakrti usa para manter-nos presos por aqui?

O Bhagavad Gita no capítulo sobre o conhecimento samkhya trata desse assunto:

Um homem deve se elevar com sua própria mente, e não se degradar. A mente é o amigo da alma condicionada e seu inimigo também. (Bhagavad Gita 6, 5)

Para aquele que conquistou a mente, ela é o melhor dos amigos; ma para a pessoa que fracassou em fazê-lo, sua própria mente será seu pior inimigo. (Bhagavad Gita 6, 6)

Aquele que conquistou a mente, já alcançou a superalma, pois logrou a tranquilidade. Para tal homem a felicidade e a tristeza, o calor e o frio, honra e desonra são todos o mesmo. (Bhagavad Gita 6, 6)

Sobre o significado dessas slokas Bhaktivedanta Swami Prabhupada tece um esclarecedor comentário:

Na realidade, toda entidade viva está destinada a aderir as ordens da suprema personalidade de Deus, que está situado no coração de todos como paramatma. Quando a mente é desencaminhada pela energia ilusória externa, a pessoa se envolve em atividades materiais. Portanto, assim que a mente da pessoa é controlada por um dos sistemas de yoga, deve-se considerar que a pessoa já alcançou o destino. É preciso aderir as ordens superiores. Quando a mente de uma pessoa se fixa na natureza superior, ela não tem nenhuma outra alternativa além de seguir as ordens do supremo. A mente tem que admitir uma ordem superior e segui-la. O efeito de se controlar a mente, é que automaticamente a pessoa segue as ordens de paramatma.

... o devoto não se afeta pelas dualidades da existência material a saber: tristeza e felicidade, calor e frio etc. Este estado é samádhi prático, ou a absorção no supremo. (O Bhagavad Gita Como Ele É, BBT, São Paulo, 1986)

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