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O Gayatri Mantra

Por Romeu de Bruns Neto

Om Bhur bhuvah svahah
Tat savitur varenyam
Bhargo Devasya dhimahi
Dhiyo yonah prachodayaat

Antes de falar a respeito do mantra que dá título a este artigo, convém usar algumas linhas para explicar o que são mantras e qual a sua importância para o praticante de yoga.

Tanto na ciência moderna quanto nas tradições espirituais antigas (e em especial no hinduísmo) estão presentes noções a respeito da natureza energética e vibracional da realidade em que vivemos. Cada ser neste universo está associado a determinadas qualidades energéticas, ou, se preferir, se pode afirmar que está vibrando em uma determinada freqüência. Conforme a ciência, tudo o que há pode ser reduzido a micro-partículas que se comportam como energia (especialmente quando você lhes pede...). Em última instância, há apenas energia. E o que percebemos como “sólido” não passa de inúmeras combinações energéticas ilusoriamente estáveis, com enormes vazios como recheio.

No início era o verbo. A palavra. O som. Assim como a combinação de todas as cores produz o branco, uma cor, digamos, incolor, a combinação de todas as vibrações produz um som inaudível. Os hindus acreditam que esse som, que na realidade é o mais absoluto e profundo silêncio, está na origem de todas as coisas. Eles o chamam de OM, sílaba que dá origem a todos os mantras.

Se você conhece algum instrumento de corda indiano, como o sitar, por exemplo, deve ter percebido que existe um conjunto de cordas que não é tocado. São as chamadas cordas simpáticas. Elas são afinadas nas notas da música a ser executada e quando o músico percute uma determinada nota, as cordas que estão naquela mesma freqüência vibram ao mesmo tempo. Similarmente, quando o praticante de yoga deseja “sintonizar” sua consciência, ele canta o mantra apropriado para a “freqüência” que deseja. Portanto, cantar um mantra é uma questão de se colocar em harmonia não só consigo mesmo (o emocional, o mental e o físico), mas com o Universo.

Há uma história peculiar sobre a origem do OM, que o relaciona diretamente ao Gayatri Mantra. Na tradição hindu, conta-se que certa vez os Devas (semideuses) queriam aprender os segredos do Universo. Como o aprendizado científico não lhes bastava, eles pediram a Deus, que lhes deu os escritos sagrados: Rig Veda, Yajur Veda e Sama Veda. Eles passaram um bocado de tempo estudando, mas perderam a paciência. O Senhor lhes pediu que não desistissem e decidiu ensinar a essência dos três Vedas, transmitida no Gayatri:

Rig Veda: Tat Savitur Varenyam
Yajur Veda: Bhargo Devasya Dhimahi
Sama Veda: Dhiyo Yonah Prachodayaat

Quanto mais os Devas praticaram e contemplaram sobre o Gayatri, mais segredos lhes eram revelados. Mas eles se tornaram impacientes de novo e o Senhor decidiu simplificar a essência dos três Vedas em três palavras:

Bhur, Bhuvaha, Svaha

Os Devas passaram mais alguns ciclos da Criação, alguns zilhões de anos humanos ponderando sobre as maravilhas dessas três palavras, mas se encheram novamente. Deus resolveu lhes dar mais uma chance, afinal Ele é Deus e tem tempo de sobra para esse tipo de jogo. Então, Ele lhes ensinou o OM.

A história dá uma idéia da importância do Gayatri dentro do hinduísmo. A oração milenar aparece em escritos de mais de 40 séculos (o Rig Veda tem pelo menos 5 mil anos) e, segundo consta, já vinha sendo transmitida oralmente há muito tempo. No Bhagavad Gita, por exemplo, Krisha diz: dos mantras, eu sou o Gayatri. Portanto, vale acrescentar que cantar o Gayatri também nos coloca em “sintonia” com uma das mais antigas linhagens espirituais do planeta.

Significado
O Gayatri mantra é composto em uma métrica de 24 sílabas, arranjadas em grupos de oito sílabas. Por isso, essa métrica especial é também conhecida como Métrica Gayatri ou Gayatri Chhanda.
A palavra Gayatri, por si só, explica a razão para a existência desse mantra. Ela tem origem na expressão em sânscrito Gayantam Trivate iti, que se refere ao mantra que resgata o praticante de todas as situações adversas.
A seguir, o mantra por partes:

OM Senhor Supremo
BHUR Protetor da terra, invólucro material. Sopro de Vida do Universo. Dos pés ao centro da força vital (umbigo).
BHUVAH Um dos significados é céu (físico). O Senhor que elimina todas as misérias. Do umbigo ao centro da garganta.
SVAHAH Um dos significados é céus (celestiais). O Senhor que é Todo Bem-aventurança e abençoa Seus devotos com felicidade. Do centro da garganta à flor de lótus de mil pétalas.
TAT Aquele (Aquele sois Vós – trecho dos Vedas).
SAVITUR O Sol, Criador, Preservador e Ser Luminoso.
VARENYAM O mais digno de culto.
BHARGO O esplendor incandescente do Sol, que dissipa a ignorância, pesares e misérias.
DEVASYA O Deva, Deus, Ele que é Todo Bem-aventurança, O Luminoso, o Revelador de Toda Glória.
DHIMAHI Meditamos n´Ele.
DHIYO YO NA Que nossa inteligência e sabedoria
PRACHODAYAAT Inspira.

Em uma tradução livre:
“OM, Senhor! Tu, que és a Fonte de Luz que tudo permeia, Sustentador, Protetor e Provedor da Felicidade, acende, ilumine e inspire nossa inteligência para possuir qualidades eternas.”

Outra tradução possível:
“OM, Mão Divina, nossos corações estão cheios de escuridão. Por favor, afaste a escuridão e promova a iluminação dentro de nós.”

Prática
Santos, estudiosos e os próprios textos sagrados indianos colocam o Gayatri entre os mais poderosos mantras já concebidos. Acredita-se que a sua prática regular tem o poder de remover obstáculos e acelerar as realizações. Muitos hindus, além de incluí-lo em suas disciplinas espirituais, têm o hábito de cantá-lo sempre que vão iniciar algum novo projeto na vida.

Quando cantar, é aconselhável que se aprenda a pronunciar corretamente as palavras. Mas essa não é uma condição sine qua non para a prática. Intenção e fé estão muito acima de uma boa pronúncia em sânscrito. Acredita-se que o resultado de um mantra não pode ser estabelecido através da razão ou do intelecto, mas somente experimentado através da devoção, fé e repetição constante.

Corpo e mente quietos também são essenciais para quem canta mantras. Mas, em tempos em que se busca tanto a satisfação imediata, vale lembrar que esse é um processo lento, que requer muita paciência e força de vontade.

Se você deseja incorporar o Gayatri à sua prática diária, de início, pode recitá-lo três vezes pela manhã, três ao meio-dia e três ao anoitecer. Posteriormente, pode tentar 108 vezes pela manhã, com a ajuda de um japa-mala (pode parecer muito, mas leva de 20 a 25 minutos e facilita bastante a meditação silenciosa depois da recitação).

Sinceramente, espero que essas informações sirvam como inspiração para sua prática de mantras. Boa sorte!

Este texto é resultado de experiências pessoais, leituras, conversas e, é claro, de uma pesquisa no Google.
Entre as principais fontes de informação estão o site Dal Sabzi for the Aatman
(http://www.dalsabzi.com/Mantras/gayatri_mantra.htm) e a área de hinduismo do About.com, que traz os textos do estudioso Gyan Rajhans (http://hinduism.about.com/library/weekly/aa061003a.htm).

*Romeu de Bruns Neto é jornalista e estuda música e yoga.

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